terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Resposta a Barros Alves: caminho iluminado de Tasso é o PDT

       Tasso tem ligações genéticas com o trabalhismo


                          
     Barros: da ultradireita ao neossocialismo?


     Li, com agradável surpresa, o artigo “Para onde vai Tasso Jereissati?”, de autoria do meu amigo Barros Alves, e publicado na edição de hoje (terça-feira, 26/1/16, do jornal O Povo). Alegra-me sobremaneira a profissão de fé do autor na legítima social democracia e, na sua vertente mais avançada, o socialismo democrático. A euforia é maior quando vejo que o autor assina o artigo como secretário-geral do Partido Socialista Brasileiro (PSB).


     Confesso que imaginava Barros Alves, a essas alturas do radicalismo da vida política nacional, a envergar camisa preta e a entoar loas a Benito Mussolini e aos patológicos ultradireitistas brasileiros Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro ou aos extremistas neoliberais Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino.
     Auguri, auguri tanti, como dizem os italianos, ou seja, que essa mudança seja prenúncio, prefiguração, augúrio, de outras melhores que estão por acontecer.
     Sempre tive bom relacionamento com Barros Alves, quando cobria política na Assembleia Legislativa para o jornal O Povo e, depois, quando passei a frequentar uma livraria que ele mantinha na Avenida Dom Manuel, destinada a empréstimos de livros a leitores. Ideia das melhores.
     Leitor voraz, eu admirava – e ainda admiro – Barros Alves pelo amor e dedicação que ele dispensa aos livros e aos autores clássicos. Escritores e poetas de uma maneira geral. Estávamos sempre a debater e comentar a respeito de autores nacionais e estrangeiros. Infelizmente, o negócio de livros que ele mantinha não foi para frente, a exemplo do que acontece com a maioria dos empreendimentos culturais neste País. Uma pena. Mas a amizade e as conversas continuaram.
     Na eleição presidencial de 2010, no entanto, a primeira que Dilma Rousseff disputou – e ganhou – eu reencontro, nas redes sociais, mais precisamente no Facebook, um Barros Alves na extrema-direita, rancoroso e agressivo. A desancar a candidata do PT e partidos aliados à Presidência da República, e o que ele chamava de “petralhas” e “comunas”.  Trocamos algumas palavras ásperas e resolvi bloqueá-lo no Facebook a fim de que a situação não evoluísse para rompimento pessoal, o que, felizmente, não aconteceu. Minha admiração e estima por Barros Alves continuou. Acredito que haja reciprocidade. Já nos encontramos posteriormente e sempre nos saudamos amigavelmente.
     Mas, voltemos ao artigo de Barros Alves que me despertou curiosa atenção. Diz o articulista: “Neste momento em que se abate sobre o Brasil uma crise ética e econômica sem precedentes na nossa história, Jereissati (Tasso) tem sido referência de firmeza e de prudência no Congresso Nacional. No Ceará todos sonham com o seu apoio nos embates político-eleitorais que se avizinham. O líder social democrata, antes demonizado pela esquerda, hoje é cortejado por muitos espectros político-ideológicos do nosso Estado, aí incluindo a mesma esquerda lulo-petista que o apedrejava”.
     Partilho, até certo ponto,  das considerações feitas pelo autor. Mas, data vênia o neossocialista Barros Alves: devo lembrá-lo que, em 1986, Tasso Jereissati, foi eleito governador do Ceará com o apoio da maioria da esquerda cearense. Incluo nesse leque o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), este último abrigado como tendência do PMDB (Partido Democrático Brasileiro), sigla pela qual Tasso Jereissati disputou – e foi vitorioso – o Governo do Estado. O Partido dos Trabalhadores (PT), na esquerda, foi o único que não o apoiou e lançou padre Haroldo como candidato à sucessão estadual.
     Barros Alves prossegue e sugere mais avanços político-ideológicos a Tasso Jereissati: “Todavia, há que se firmar na ideia de que, pelo menos no Ceará atual, não há caminho mais iluminado para Tasso Jereissati e o PSDB do que o socialismo democrático com raízes no pensamento que, ao longo da história, se irmana, de forma siamesa, com a social democracia”.
     Peço licença para contrariar o articulista mais uma vez. Pela herança genética de Tasso Jereissati o “caminho mais iluminado” seria apoiar, nessa disputa municipal, o Partido Democrático Trabalhista (PDT), herdeiro legítimo do trabalhismo de Getúlio Vargas, João Goulart e, principalmente, Leonel Brizola. O pai de Tasso Jereissati, senador Carlos Jereissati, foi amigo e correligionário dessas três personalidades históricas.
     Vargas, Goulart e Brizola sofreram na carne as mesmas terríveis pressões que Dilma Rousseff padece agora por parte da grande mídia e das mesmas forças reacionárias. O primeiro respondeu aos inimigos com o heroico gesto do suicídio, o segundo foi deposto e o terceiro amargou longo exílio, retornando ao Brasil para retomar a herança trabalhista, acrescentando o tempero “socialista moreno”, expressão cunhada por Brizola. Se Barros Alves cita proeminentes figuras intelectuais do PSB, o PDT o supera com nomes da estirpe de Alberto  Pasqualini, Darci Ribeiro e Abdias Nascimento, entre tantos outros.

     Além de tudo isso, Tasso Jereissati mantém relações de amizade com o pré-candidato do PDT à Presidência da República Ciro Gomes e seria natural seu apoio ao postulante pedetista ao  Paço Municipal em Fortaleza.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Morte de Benedict Anderson coincide com os 50 anos do genocídio ideológico na Indonésia

     
Benedict Anderson e a professora Monica Dias Martins


Os 50 anos do genocídio ideológico na Indonésia – ocorrido no final de 1965 e início de 1966 no qual morreram entre 600 mil a um milhão de pessoas – coincidem com a morte do cientista político Benedict Anderson, 79 anos, em 13 de dezembro último (2015).  Um verdadeiro cidadão do mundo, ele nasceu na China, filho de um casal de irlandeses, e tinha cidadania norte-americana. Além de tudo isso, era muito ligado à Indonésia.
     Benedict Anderson esteve no último mês de agosto (2015) em Fortaleza, a convite da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e Observatório das Nacionalidades. Na capital cearense participou de uma roda de conversas e lançou seu último livro: Sob Três Bandeiras. Em 2005, ele já havia estado em  Fortaleza. Na ocasião, foi entrevistado para o jornal O Povo pelo editor deste blog.
Autor do livro Comunidades Imaginárias, Benedict Anderson era, no Ocidente, um dos maiores conhecedores desse país misterioso e imprevisível: a Indonésia. Estava ali quando aconteceram os massacres e de lá foi expulso, em 1972, por ter denunciado os graves crimes contra a humanidade cometidos naquela nação asiática entre o  final de 1965 e o começo de 1966. Outra coincidência: a morte do professor Benedict Anderson ocorreu em Malang, nessa mesma Indonésia, uma de suas quatro pátrias.  Ele estava ligado por vínculos de nascimento à China, familiares (Irlanda e Inglaterra) e cidadania (Estados Unidos).
“OBSERVADOR DE ESTRELAS”
     Um dia após a morte de Benedict Andersom, o Observatório das Nacionalidades divulgou a seguinte nota de pesar:
      “No domingo, dia 13 de dezembro de 2015, o mundo perdeu um de seus mais inquietos observadores de estrelas, como ficou conhecido o autor Benedict Anderson para aqueles que o conheceram e tiveram a oportunidade de compartir seus conhecimentos no grupo de pesquisa Observatório das Nacionalidades e em suas aulas e palestras em redor do mundo. Assim, um "inquieto observador de estrelas" foi a forma como o descreveu a professora Monica Martins, coordenadora do Observatório das Nacionalidades, que teve o prazer e a honra de debater ideias com Anderson e de quem tornou-se amiga.
     Cientista político, professor emérito na Universidade Cornell, autor do clássico "Comunidades Imaginadas", Anderson, cidadão do mundo, deixou nossas companhias desde sua adorada Indonésia, que aguçou sua curiosidade, norteou seus estudos e legou ao mundo um estudioso que exerceu, e há ainda de exercer, profunda influência sobre aqueles que se dedicam aos estudos da nação e da formação da entidade nacional.
Em agosto deste ano, em parceria com a Universidade Estadual do Ceará, o Observatório das Nacionalidades proporcionou o que agora sabemos ter sido sua derradeira visita a uma cidade pela qual, por diversas vezes, declarou seu querer bem, Fortaleza. Na ocasião, além de participar de uma roda de conversas, Benedict Anderson lançou seu último livro, "Sob Três Bandeiras".
É com pesar que colegas professores, alunos e amigos queridos se despedem de "Ben", como era conhecido nos círculos mais chegados. Com sua partida, perdemos todos. Sua vida, contudo, é algo a celebrar. O conhecimento proporcionado; o clássico produzido; as questões levantadas ainda sem resposta; o carinho e cuidado no trato de todos, graduandos ou doutores. O inquieto observador de estrelas há agora de observar as inquietudes que deixou por aquietar”.

MONICA DIAS MARTINS: UM INTELECTUAL AVESSO  ÀS VAIDADES
A professora da Uece  Mônica Dias Martins prestou  o seguinte depoimento sobre a personalidade de  Anderson ao Blog  Coluna da Hora:
“Benedict Anderson esteve em Fortaleza em 2005, e meu texto "Um Inquieto Observador das Estrelas", que serve de prefácio à edição brasileira de Sob Três Bandeiras: anarquismo e imaginação anticolonial (EdUECE-Unicamp, 2015)", contém um esboço de perfil desse grande pensador. Em dez anos, a primeira impressão se manteve viva!
Ben, como gostava de ser chamado, era um intelectual de renome cujo jeito simples e gentil cativava aqueles que tiveram o privilégio de o conhecer. Perspicaz e curioso sempre estava indagando sobre o que via e ouvia. Adorava conversar com jovens e respondia a todas as suas perguntas com grande atenção. Não gostava de grandes eventos, de conferências  cercadas de pompa. Segundo comentava, isso o distanciava do contato pessoal, ao qual atribuía importância. Foi assim na última vez que esteve na Universidade Estadual do Ceará, em Fortaleza, Dia 19 de agosto, no lançamento de seu livro estava tímido, mas na roda de conversa com colegas e estudantes era outra pessoa, falante e alegre. Era nesses momentos, em “petit comitê”, que mostrava seu lado de intelectual inquieto e observador, que não se contentava com  qualquer explicação para os fenomenos que o interessavam, como a literatura, o grafitte, as migrações, o Sudeste Asiático, etc. Sempre que vinha ao Ceará fazia questão de visitar comunidades indígenas e quilombolas, os pescadores, no Iguape, povoado em que passava uns dias descansando do trabalho e olhando as estrelas.

Cientista político Benedict Anderson em roda de conversa
em sua última visita a Fortaleza

O depoimento do próprio Ben, por ocasião de sua primeira visita a Fortaleza,  publicado na revista Tensões Mundiais (www.tensoesmundiais.net) v.1, n.1 Jul-dez 2005, revela como ele avaliava "Comunidades Imaginadas", sua obra mais conhecida e um marco no estudo das nacionalidades, tema que parecia fadado a segundo plano no ano de seu aparecimento, 1983:
Vejo o novo livro como uma correção de “Immagined Communities”. Imagine que você está na praia à noite e, olhando para o céu, vê aquele monte de estrelas ali paradas. Você pensa que amanhã elas vão estar do mesmo jeito que ontem e daqui a dez anos continuarão como hoje. Muitas vezes se pensava as nações assim, como identidades fixas, só que isso é uma ilusão tanto para as nações como para as estrelas, que estão em relação umas com as outras, têm campos gravitacionais que você não vê, mas que agora se sabe que existem. O estudo comparativo dos nacionalismos, tal como era feito, de certo modo, se assemelha à astronomia antiga, em que você não consegue perceber o movimento dos astros.
Entendo a globalização como essa espécie de campo gravitacional e tento ver as nações em movimento, atravessando suas próprias fronteiras nacionais e com campos de força, por exemplo, as forças políticas e econômicas. O islamismo atravessa várias nações, é globalizado e não centralizado em uma só fronteira. Existem também os movimentos antiglobalização, feministas, de defesa das minorias sexuais, camponeses, indígenas. Olhando para eles você pode ver a energia, o movimento que em um mero estudo comparativo entre países não conseguiria perceber. Under three flags não é uma simples correção, mas, talvez, uma certa mudança no paradigma de como se estuda o nacionalismo.
Finaliza a professora Monica Dias Martins:
“Guardarei para sempre os ensinamentos deste intelectual avesso às vaidades tão comuns na academia. Ben deixou de lado interpretações clássicas e não fez concessões aos modismos. Distanciou-se da visão eurocêntrica dominante nos que estudam com fervores respeitosos a nação e nos deixou uma obra inovadora que ganhou reconhecimento mundial. Uma pessoa inesquecível para os que tiveram o privilégio de com ele conviver!”.

ÓDIO ACUMULADO CAUSA A MORTE DE UM MILHÃO DE PESSOAS NA INDONÉSIA

Corpos de vítimas dos massacres da Indonésia

Entre 600 mil a um milhão de mortos.  Há 50 anos, ou mais precisamente entre outubro  de 1965 e março de 1966, na  Indonésia, ocorria um dos maiores massacres da história da humanidade: a eliminação de comunistas, colaboradores, simpatizantes, suspeitos (muitos deles inocentes) de ligação com  o Partido Comunista da Indonésia (PKI), posto na ilegalidade após tentativa de golpe militar supostamente esquerdista em 30  de setembro de 1965. Nos massacres foram mortos também socialistas, outros esquerdistas não-comunistas e integrantes da comunidade étnica chinesa (minoritária no país).
     Alguns generais e outros oficiais foram mortos durante  a tentativa de golpe. Foi o pretexto para o exército indonésio dar início ao  contra-golpe e ao  extermínio de comunistas e esquerdistas, além de outros grupos políticos.
     O banho de sangue é pouco conhecido no Ocidente, embora existam filmes sobre a matança (O Ano em que Vivemos e Perigo e o estranho documentário Act of Killing). Historiadores  e cientistas políticos, no entanto, se debruçaram sobre o assunto e muitos livros e estudos foram  escritos.  O editor deste blog teve a honra de entrevistar um  deles: o  irlandês-americano (nascido na China!) Benedict Anderson,  que visitou Fortaleza  em 2005 e concedeu entrevista ao  jornal  O Povo. Eu fui o entrevistador. Anderson voltaria a Fortaleza em agosto de 2015. Em  13 de dezembro  do ano passado (2015) Anderson  veio a falecer  na Indonésia, país ao qual  ele era muito ligado.
A Indonésia povoa minha imaginação desde os tempos de adolescente, leitor voraz e ouvinte das emissoras de rádio em ondas curtas (Rádio Central  de Moscou,  Rádio Pequim,  Rádio Tirana, Rádio Havana, BBC de Londres, RTF (Radiodifusion et Télévision Française,  hoje Radio  France Internationale  e Voz da América).      Foi através dessas rádios que eu, com 15,  16 anos de idade,  tomei conhecimento desses tenebrosos massacres, no plural, porque eles não ocorreram de uma só vez, mas em levas sucessivas de outubro de 1965 até março do ano seguinte. As notícias sobre o genocídio – a verdadeira dimensão do massacre ou dos massacres -  só vieram a ser divulgadas posteriormente, mesmo assim nas emissoras de rádio dos países comunistas. Na imprensa ocidental, quase silêncio  total.

O QUE ACONTECEU


General Suharto, o Pinochet asiático 
(à direita em primeiro plano)

Os Massacres de 1965-1966 foram assassinatos em grande escala que ocorreram na Indonésia ao longo de muitos meses, tendo como alvo os comunistas, esquerdistas e pessoas pertencentes à comunidade da minoria étnica chinesa, muitas vezes por iniciativa das forças armadas.
Houve expurgo anticomunista logo após um golpe fracassado de Movimento 30 de Setembro na Indonésia (supostamente esquerdista). As estimativas mais aceitas são que mais de 500.000 e um milhão de pessoas foram mortas. O expurgo foi um evento crucial na transição para o "Nova Ordem", bem como a eliminação do Partido Comunista Indonésio (PKI) como força política . A reação do exército indonésio à rebelião fracassada levou à queda do presidente Sukarno e o início de três décadas da presidência de Suharto, uma espécie de Pinochet asiático.
     O fracassado golpe supostamente esquerdista despertou ódios comuns acumulados ao longo de décadas, atiçados pelo exército indonésio, que rapidamente culpou o PKI pelo assassinato de militares na rebelião. Os comunistas foram expurgados da vida política, social e militar, e o próprio PKI foi proibido. Os massacres começaram em outubro de 1965, nas semanas seguintes a tentativa de golpe, e atingiram seu pico durante o restante do ano até diminuírem nos primeiros meses de 1966. Eles começaram na capital, Jacarta, e se espalharam para Java (Central e Leste), mais tarde, para Bali. Milhares de grupos paramilitares  locais e unidades do exército mataram militantes reais ou supostos simpatizantes do PKI. Embora mortes ocorreram em toda a Indonésia, as maiores carnificinas aconteceram nos grandes redutos do PKI de Java Central, Java Oriental, Bali e Sumatra do norte. É possível que mais de um milhão de pessoas foram presas.
     O presidente deposto Sukarno teve a sua doutrina"Nasakom" (nacionalismo, religião e comunismo) rompida. Seu pilar mais importante de apoio, o Partido Comunista da Indonésia (PKI), foi efetivamente eliminado pelos outros dois pilares: o exército e islamismo político; e o exército buscava e conseguiu o poder total. Em março de 1967, Sukarno foi destituído pelo Parlamento provisório da Indonésia do pouco poder que ainda lhe restava. Suharto foi nomeado Presidente interino. Em março de 1968, Suharto foi formalmente eleito presidente.
     Os assassinatos são omitidos na maioria dos livros didáticos de história da Indonésia e têm recebido pouca reflexão por parte do povo indonésio. Isso se deve ao regime de Suharto que governou por mais de três décadas. Explicações satisfatórias para a escala e o frenesi da violência têm desafiado os estudiosos de todos os matizes ideológicos. A possibilidade de um retorno a levantes semelhantes é citada como fator de conservadorismo político do governo da "Nova Ordem" e um controle apertado do sistema político. Vigilância contra uma ameaça comunista continuou a ser uma marca de três décadas da presidência de Suharto.
A CIA (central norte-americana de inteligência) nega participação ativa nas mortes. Sabe-se, no entanto, que o governo americano forneceu extensas listas de comunistas a esquadrões da morte da Indonésia.
     Um relatório ultrassecreto da CIA, no entanto, reconhece que “os massacres de 1965/1966 foram um dos piores assassinatos em massa do século XX e compara-se aos expurgos soviéticos da década de 1930, os assassinatos em massa praticados pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, e ao banho de sangue maoísta do início dos anos 1950 ". Fonte: Wikipédia (versão em inglês).
    

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Rodger Rogério: música de qualidade está fora da programação das grandes emissoras de rádio e tv

         "A música de qualidade está fora da programação das grandes emissoras" (de rádio e televisão). A declaração é do cantor e compositor Rodger Rogério em entrevista concedida ao blog Coluna da Hora. Para Rodger, "a música brasileira nunca perdeu a qualidade. Em qualquer pedaço deste chão tem sempre alguém que canta, com talento, seu tempo, seu amor, sua gente             ou seu lugar. A baixa qualidade é da programação das emissoras de rádio e televisão.
          Rodger Rogério se apresentará neste sábado, a partir das 10 horas, no evento Anistia - 15 anos - Tempo de Lutas e Desafios, em comemoração aos 15 anos da Associação 64/68 Anistia, no Container Art Mall, na Rua Leda Pereira, 534, Parque Manibura. Um dos maiores nomes do Pessoal do Ceará, Rodger é autor das músicas Bye, Bye Baião, Chão Sagrado, Retrato Marrom e O Lago, entre outras.


Paulo Verlaine - Quinze anos após a passagem do milênio, pode-se dizer que a canção acabou? Chico Buarque, um dos ícones da MPB, declarou, numa entrevista concedida em 2004 ao jornal Folha de S. Paulo, que a canção morreu. Morreu mesmo?

Rodger Rogério - A canção acabará jamais.. A música e, em particular,a canção, é a expressão da alma coletiva...

PV - Mesmo tirando de lado o romantismo e as letras que falam de amor, há espaço hoje para música popular de qualidade, como a que se fazia nos anos 60, 70 e 80?

RR- Sem dúvida Na música, na vida, no Universo, em tudo, o ritmo é fundamental, tudo é cíclico e há espaço e tempo para tudo. O que mudou muito foi o mercado.Este está             aturdido. 

PV - Entre os valores novos surgidos (as) dos anos 90 para cá você citaria quem?

RR - Prefiro não citar nomes pois são muitos e do mais alto valor. Grandes talentos, artistas verdadeiros.

PV  - O acesso aos bens de consumo, principalmente no que se refere aos aparelhos tecnológicos - televisores LED, HD, computadores, pen drives, etc – teria contribuído para a baixa qualidade da música popular produzida hoje no Brasil, como pensam alguns elitistas? Ou a queda na qualidade do ensino é responsável pelo lixo que se ouve no País?

RR - A música brasileira nunca perdeu qualidade, pelo contrário, em qualquer  - pedaço deste chão tem sempre alguém que canta, com talento, seu tempo, seu amor, sua gente             ou seu lugar. A baixa qualidade é da programação das emissoras de rádio e televisão.

PV - Nos anos 50, 60, 70, 80, até os 90 até a música chamada brega, o forró (Trio Nordestino, por exemplo),  lambada (anos 90) e outros modismos de massificação musical tinham mais qualidade do que as coisas produzidas de 2000 para cá. O que aconteceu?

RR -A música de qualidade está fora da programação das grandes emissoras.

PVComo qualifica o seu trabalho musical atualmente? E o do  passado? Se arrepende de ter deixado de fazer alguma coisa, tipo ceder à massificação para alcançar multidões e as paradas de sucesso?

RR - Minha relação com a música é amorosa e sem arrependimentos. Hoje eu gosto muito de cantar, coisa que antes a timidez me proibia. O Curso de Arte Dramática da UFC             me ensinou a driblar a timidez.

PV - Passando para a política, a que atribui a agressividade e o baixo nível do debate político hoje, intensificadas durante e após a última campanha presidencial? Há presença da direita, dos piores  setores da direita (adeptos do  Bolsonaro e dos pastores Malafaia e Feliciano) em muitos setores da sociedade, principalmente nas redes sociais. Sentimentos como o racismo, a misoginia, a homofobia e a defesa da ditadura militar e do apartheid social afloraram com grande intensidade. Isso estava adormecido, incubado, mas latente. O que deflagrou essa onda fascista no Brasil?

RR - Educação, não confundir com adestramento, educação libertadora. Educação com Ciência e Arte.é o tratamento para muitos males brasileiros, inclusive desses males de             agressividade, preconceito e intolerância.Música na Escola já seria um bom primeiro passo nesse rumo da libertação. Esses sentimentos de ódio sempre existiram na                 nossa sociedade. Agora a Democracia da web permite uma amplificação de qualquer ideia ou sentimento.

PV -  Como se sente num evento de anistiados políticos?

RR - É um encontro emocionante, é uma reunião de pessoas que sonharam juntas quando jovens.

PV -Como vê o papel do Pessoal do  Ceará na MPB.

RR - Essa turma da música da nossa geração deu uma rica contribuição  ao repertório musical brasileiro , honrando uma tradição que vem de Alberto Nepomuceno, Paurílo                 Barroso,Aleardo Freitas, Lauro Maia, Humberto Teixeira, Zé Meneses,  Evaldo Gouveia...



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Guerra ao abuso sonoro: Prefeitura destrói 287 paredões de som

Mauri Melo
                     Paredões de som destruídos


O que o prefeito Roberto Cláudio fizer de correto por Fortaleza eu estou disposto a apoiá-lo. Em 2012, votei em Inácio Arruda (PCdoB) no primeiro turno, em Elmano de Freitas (PT) na segunda etapa. Nunca me arrependi de ter feito essas opções. Ao contrário, sinto-me muito honrado. Sou crítico da administração do atual gestor de Fortaleza no que se refere à retirada de árvores das avenidas de Fortaleza e ao sinistro plano de destruir a Praça Portugal, além do abandono que relegou o Passeio Público, tão bem cuidado por sua antecessora Luizianne Lins. A velha Praça dos Mártires volta agora a ser o que era em passado não muito distante: local perigoso e inviável para passeios saudáveis.
 O amigo Mariano Freitas, no entanto, chama-me a atenção, no Facebook, para a destruição de 287 paredões de som pela Prefeitura, fato noticiado pelo jornal O Povo. Ô coisa boa! Quase três centenas dessa parafernália do meio dos infernos haviam sido apreendidas em operações da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma), informa OP. Seus proprietários, se fosse por mim, deveriam estar presos sem direito à fiança, estavam dispostos a infernizar o sossego dos fortalezenses no período de Carnaval. Canalhas!
Se não fosse agnóstico, eu diria: deus me perdoe, mas desejaria ver um indivíduo sádico desse preso durante 24 horas em um cubículo à prova de som (para proteger os tímpanos de quem estivesse do lado externo) junto com um paredão adquirido pelo transgressor ligado no volume máximo apenas com uma música sem nenhum intervalo: a de pior qualidade entre a seleção de porcarias. Ele veria o que é bom para tosse.
Observa-se fato interessante: o gosto musical de um retardado mental desse é proporcional ao volume do paredão que ele utiliza. Quanto mais alto, maior a quantidade de dejetos “musicais”. Alguém, por acaso, já ouviu Adagio, de Tomaso Albinoni em um paredão de som? A Nona Sinfonia de Beethoven? Os Noturnos de Chopin? Algum dos Concertos de Brandenburgo de Johann Sebastian Bach? Nunca! O que se ouve são “sucessos” de última hora (pseudoforrós, baianices e carioquices (funks) de baixíssima qualidade). “Composições” de vida mais efêmera do que a de uma mosca.
Por questão de justiça, devo destacar o trabalho realizado, com muitos êxitos obtidos, pelo então secretário de Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam), Deodato Ramalho (2006 a 2007),
na gestão da prefeita Luizianne Lins.
Porém, a atual secretária de Urbanismo e Meio Ambiente Águeda Muniz, administração Roberto Cláudio, já deu mostras de que não está disposta a transigir com o abuso sonoro. Que continue essa boa vontade! A população de Fortaleza agradece.
Deixo sugestão à eficiente secretária: que tal disciplinar o problema dos carrinhos de mão bregas que circulam pelo Centro de Fortaleza a vender CDs piratas em alto volume? Não me incomoda a questão da pirataria (muito complexo para a Prefeitura tomar para si a questão), mas o abuso sonoro.  O pessoal até que poderia vender os CDs, desde que não os tocassem. Pedir para colocar em volume normal é malhar em ferro frio. Que se apreendam as caixas de som!
A gestão Roberto Cláudio encontrará incentivo em toda ação que fizer em benefício da cidade. Mas o caminho não é retirar (ou cortar) árvores numa capital tão necessitada de sombra, de verde, e muito menos destruir logradouros belíssimos como a Praça Portugal.

  

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Dedé de Castro: desaparece um dos últimos jornalistas românticos


 Edmundo (Dedé) de Castro


     
Sem preconceito, sem mania de passado, seu querer ficar do lado de quem não quer navegar (Paulinho da Viola): slogan de Dedé de Castro para o jornal Unitário.


     Com o falecimento de Edmundo de Castro, ocorrido na madrugada desta segunda-feira, desaparece um dos últimos ícones da geração genial e romântica do jornalismo cearense. Para mim, baseado na vivência que tive com cada um deles, os seis grandes foram, por ordem alfabética: Durval Ayres, Edmundo de Castro, Fenelon de Almeida, J. C. de Alencar Araripe, Moraes Né e Odalves Lima. Houve outros grandes jornalistas desse período, claro, mas estou a referir-me apenas aos que tive a honra e o prazer de conviver pessoalmente.
     Dos seis citados, três – Durval Ayres, Moraes Né e Odalves Lima – eram egressos de O Democrata, jornal do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se consagraram depois no jornal O Povo. A escola da esquerda que ainda pontifica até hoje nesses inglórios tempos de “nova direita”..  
     Dedé de Castro era um ex-udenista (simpatizante do antigo partido União Democrática Nacional-UDN), posteriormente convertido ao marxismo e ao PCB. Perambulou (o verbo é esse mesmo, porque ele não era de esquentar lugar e engolir sapos) em todos os jornais de Fortaleza.
     Durval Ayres era também escritor consagrado, membro da Academia Cearense de Letras, editorialista de Gazeta de Notícias e O Povo. Um grande romancista, de espírito aberto e desprendido. Estilo elegante no manuseio do texto.
     Fenelon Almeida, também escritor, era esquerdista cristão e, nos seus últimos anos, voltado mais para a doutrina espírita, sem jamais abandonar a defesa das causas sociais. Com este convivi mais de perto – foi meu chefe no antigo Departamento de Pesquisa de O Povo – e com ele hauri inesquecíveis lições.
     Moraes Né era outro titã do jornalismo cearense. Dotado de impressionante cultura, escrevia sobre qualquer assunto com grande conhecimento de causa. Tinha temperamento explosivo, mas era homem pacato, simples, generoso e sempre disposto a ajudar os que se iniciavam na profissão. Foi o primeiro jornalista cearense a tratar com seriedade do problema do meio  ambiente neste Estado. Mas era perfeito em tudo o que fazia.
     Odalves Lima, que se destacava como editorialista também no O Povo, tinha um dos melhores textos do Brasil, sem exagero. Um ás das “pretinhas” (gíria usada para designar as letras das velhas, hoje peças de museu, máquinas de escrever).
     J. C. de Alencar Araripe destoa do sexteto em termos ideológicos, não de competência e honradez: era, digamos, um centro-direitista, mas sempre valoroso e íntegro, que sabia reconhecer qualidades nos colegas dos quais ele discordava. Fez toda sua carreira no O Povo. Com ele, meu chefe superior (Fenelon era chefe imediato), aprendi ensinamento que nunca esqueço: “Tudo pode ser dito. Depende da maneira com que você diz”.
     Parafraseio Shakespeare (Júlio César, no discurso de Marco Antônio) e digo: “Perdoai-me, mas tenho o coração neste momento, no ataúde de Dedé de Castro (Marco Antônio, no texto shakespeariano, referiu-se a César); é preciso calar até que ao peito ele me volte”.
      Conheci Edmundo de Castro antes de eu sonhar em ser jornalista. Em 1968, eu com 18, 19 anos, no meu primeiro emprego: operador de telefones da Empresa Brasileira dos Correios e Telégrafos (ECT), ainda com cara de DCT (Departamento dos Correios e Telégrafos), mas a mudança formal de repartição pública para empresa estatal já havia se realizado.
     Tomei susto ao tomar conhecimento que, a meu lado, trabalhava, na mesma função, um jornalista consagrado, autor de reportagens famosas e ganhador de vários prêmios de jornalismo. Era o Dedé de Castro, na época um quarentão. O setor: a Radiofonia da ECT. Era difícil (como ainda é hoje sobreviver apenas com salário de jornalista). Não havia discagem direta à distância e as ligações era feitas pelos Correios, em turmas divididas em três turnos: manhã, tarde e noite, ligadas à central no Rio de Janeiro. Éramos da turma da noite. Chamava-me a atenção a maneira altiva com que Dedé tratava os colegas cariocas (alguns, não todos, eram meio boçais), com os quais nos comunicávamos para completar as ligações.
     Reencontrei-o dois anos depois no jornalismo, mais famoso ainda. Passamos então a conviver com mais frequência, principalmente nos bares de Fortaleza. Nas conversas, no meio das quais ele se autodenominava Dedé Beira D´Água, aprendi a admirar aquele cidadão de Itapipoca, mais precisamente do Córrego dos Cajueiros, lugar que ele sempre fazia questão de citar. Gostava de repetir o verso da canção Argumento, de Paulinho da Viola: "Sem preconceito, sem mania de passado, seu querer ficar do lado de quem não quer navegar", que usou como slogan do Unitário, na sua curta e marcante temporada como editor deste jornal dos Diários Associados. Eu vibrava com os prêmios por ele conquistados (foram muitos). Em 1987 ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (o Nobel da imprensa brasileira) com a série “O Nordeste por trás das grades”, publicada no Diário do Nordeste. Dedé de Castro editou também a revista cultural O Saco, fundada pelo poeta e livreiro Manoel Coelho Raposo, que revelou grandes talentos literários: Nilton Maciel, Carlos Emílio Corrêa Lima, Jackson Coelho, entre outros.
     A convivência se tornou maior quando fundamos, em 1977, o jornal alternativo Mutirão, juntamente com Francis Vale, Célia Guabiraba, Gervásio de  Paula, Maria Luiza Fontenele, Rosa da Fonseca, Luiz Carlos Antero, Agamenon Almeida, Silas de Paula e outros. Edmundo de Castro assinava a coluna O Cacete do Dedé Incomodava muita gente (os poderosos e os coleguinhas petulantes eram seu alvo predileto). Mutirão era mais influenciado pelo pessoal do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), embora abrigasse pessoas de outras tendências.
     Em 1985, novo reencontro: desta vez no Diário do Nordeste, onde ele era pauteiro. Dedé foi um mestre do jornalismo, um guru, e nessa condição, teve discípulos, entre os quais eu também me incluo, juntamente com Francisco Bilas (falecido), Carlos Alberto Alencar, Neno Cavalcante, Mozarly Almeida e muitos outros.
     Nesses intervalos de locais de trabalho, sempre frequentava, periodicamente a casa de Dedé de Castro nas Damas, perto da Casa do Português, onde vivia ao lado da esposa, dona Nenen, e do filho Paulo Afonso, quando este era solteiro.
     Dedé de Castro foi e sempre será um dos meus tipos inesquecíveis. Adeus, amigo.



sábado, 7 de fevereiro de 2015

"Odiai-vos uns aos outros"






A partir de agora, passo a interagir no Facebook apenas com pessoas que conheço ou que têm um mínimo de civilidade.
     Costumava debater - discordar e, algumas vezes, concordar - com respeitado homem público da área jurídica de Fortaleza. Nunca houve troca de ofensas. Algumas críticas, réplicas e tréplicas, sempre inteligentes e bem-humoradas da parte dele. Procurava tratar-lhe da mesma maneira, não com o mesmo brilhantismo, evidentemente.
     Há alguns dias, no entanto, um homem que não conheço, mas é do círculo de família e amizades do cidadão que citei, surge do nada e passa a agredir-me com palavras odiosas. Bloqueio-o do meu Facebook, uma vez que não constava nem na minha lista de amigos. Tomarei atitude idêntica com outros que agirem dessa maneira.
     O agressor diz no perfil dele que é cristão. Para esse disseminador do ódio, cito o evangelho de Mateus (Cap. 5, vers. 44): "Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem".
     No meu caso, não sou amigo nem inimigo desse rapaz, porque sequer ele me foi apresentado. Não havia tomado consciência da sua existência. Por que tanto ódio? Tenho a impressão que ele, o odioso, idolatra Satanás (também conhecido como Lúcifer, Belzebu, Príncipe das  Trevas, Capeta) e nunca Jesus Cristo. 
Vade retro, Satana!

(Texto reproduzido, com alguns retoques e acréscimos, da minha time line no Facebook)


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Derrubada ou retirada de árvores acelera devastação ambiental em Fortaleza. Praça Portugal é a próxima vítima


"Quando uma árvore é cortada ela renasce em outro lugar. Quando eu morrer, quero ir para esse lugar, onde as árvores vivem em paz."
Tom Jobim


    
Fortaleza ainda impressiona os visitantes de outros estados e do Exterior pela arborização das ruas e avenidas. A imagem preconcebida lá fora de uma cidade semiárida é substituída pelo verde acolhedor. A brisa marinha – quase sempre constante – ajuda também a atenuar o forte calor da capital cearense.
     Graças a esses fatores, Fortaleza tem um dos climas mais agradáveis entre as capitais nordestinas, sem desmerecer as demais, possuidoras de outros encantos. Sol quase o ano todo, praias e calor suportável, principalmente nos meses de junho, julho, agosto e setembro, até outubro, quando a ventania, algumas vezes muito forte, alivia o mormaço.
    
A triste constatação: o clima ameno e o cenário verde estão no fim – ou muito ameaçados. A ofensiva impiedosa contra a arborização acelerou-se nos últimos dois anos. O prefeito Roberto Cláudio (foto) mandou retirar mais de uma centena de antigas árvores nas avenidas Santos Dumont, Dom Luiz e Bezerra de Menezes e outras ruas. Algumas foram replantadas no Horto Florestal (sobreviveram?) e outras separadas para possível replantio. Muitas foram cortadas. 
     A agressão ambiental teve uma justificativa até certo ponto compreensível: a chamada mobilidade urbana, inviabilizada pelos engarrafamentos intermináveis e o trânsito caótico da cidade. Noticiou O Povo on line no dia 14 de agosto de 2014: “Em abril (nota do blog: 2014), a Prefeitura retirou 202 árvores dos canteiros centrais da Santos Dumont e Dom Luís, na Aldeota, para implantação de sistema binário entre as vias. Dessas, 190 foram transplantadas no Horto Municipal. 110 árvores ainda corriam risco de morte”.
     Na Bezerra de Menezes, a retirada para transplantio ou derrubada de árvores deveu-se à implantação do BRT (Bus Rapid Transport) naquela avenida, até então, uma das mais arborizadas e mais belas de Fortaleza. Construída em 1966, pelo então prefeito Murilo Borges, a Bezerra de Menezes já foi comparada à Champs-Elisées, de Paris, sem nenhum exagero. Chego até a dizer que, em alguns trechos, ela superava em beleza, também em determinados pontos, a famosa via parisiense.
     Pergunta-se: não havia alternativas?  O resultado é a avenida Bezerra de Menezes praticamente sem árvores. Lamentável.
     Roberto Cláudio iguala-se assim a um prefeito de triste memória para o fortalezense: José Walter Cavalcante (final dos anos 60 e início da década de 70), responsável pela destruição de árvores centenárias da Praça Clovis Bevilaqua para construção de caixa d´água subterrânea da Cagece que nunca funcinou. A Praça Clóvis Bevilaqua é hoje um melancólico descampado. José Walter também tem seu nome registrado na infeliz “reforma” de um dos ícones da cidade: a Praça do Ferreira, que ficou totalmente descaracterizada. Décadas depois Juraci Magalhães devolveu à população a Praça do Ferreira, lembrando o antigo formato vilipendiado na gestão José Walter.
PRAÇA PORTUGAL
     Roberto Cláudio vai destruir – a Câmara Municipal já autorizou – um dos mais belos logradouros de Fortaleza: a Praça Portugal, com o objetivo de completar o sistema binário das avenidas Dom Luiz e Santos Dumont. Como sempre, se diz que não há alternativa, mas existe. O problema é que a opção sempre é pela destruição. É preciso mobilização da sociedade para evitar mais esse atentado à memória da cidade.
TEMPOS DE MOBILIZAÇÃO
     Pior é que a maioria dos fortalezenses assistiu impassível à derrubada das árvores, salvo uma ou outra manifestação isolada na imprensa.
      Chegam-me lembranças dos tempos em que a sociedade fortalezense se mobilizava em favor da causa ecológica. Metade e quase final dos anos 70. Época memorável das campanhas vitoriosas da Sociedade Cearense de Defesa do Meio Ambiente.                        Vou citar apenas algumas que me ficaram na memória: 1) campanha contra a derrubada dos coqueiros da avenida Beira-Mar (por incrível que pareça, tentaram praticar essa perversidade, sem êxito, graças à Socema); 2) luta contra a chamada “capinação química”: uma multinacional (Monsanto) havia sido contratada pela Prefeitura de Fortaleza para eliminar a plantinha rasteira tiririca que se alastrava pelas coxias das ruas da cidade e causava transtornos. O problema era que o produto químico a ser utilizado pela Monsanto, afetava não apenas a tiririca, mas a vegetação de Fortaleza, as árvores, inclusive. Desistiram. O nome Tiririca veio a se tornar famoso, graças ao palhaço e hoje – por que não dizer? – atuante deputado federal, iniciando o segundo mandato;
     Mas, voltemos à Socema, para falar da sua maior glória, o gol de placa: a batalha – com pontos tensos e desanimadores - em favor da preservação do embrião do Parque Cocó, o hoje Parque Adahil Barreto. O Banco do Nordeste queria construir ali a sua sede administrativa, que terminou indo para o Passaré. Grande mobilização impediu esse atentado ao meio ambiente da cidade. Anotem esses nomes. O Parque Adahil Barreto e o Parque do Cocó devem a sua preservação a pessoas como Joaquim Feitosa, Flávio Torres Araújo, Marília Brandão, Joaquim Cartaxo, Samuel Braga (na Socema e, depois, vereador na Câmara Municipal), José Borzachiello da Silva e tantos outros.
        Na imprensa, destaco a atuação do grande jornalista Moraes Né, através de editoriais e artigos. Eu, repórter do jornal “O Povo”, na época, fui testemunha, na qualidade de repórter e fiz parte, na condição de cidadão, dessa luta memorável, tendo como referência Moraes Né. Chegamos a fazer reportagem conjunta em determinada ocasião.
AMEAÇAS AO COCÓ
     Infelizmente, essa mobilização positiva dos anos 70 e 80 virou acomodação nos dias atuais. O próprio Parque do Cocó, fruto da lua da sociedade pela preservação ambiental, vê-se hoje ameaçado pela construção de obras públicas e pela especulação imobiliária.
     Destaque-se, a bem da verdade, a mobilização levada a efeito contra a construção dos dois viadutos na área de preservação ambiental do Cocó, lideradas pelos vereadores João Alfredo e Toinha Rocha, além da ex-prefeita Maria Luiza Fontenele e a ex-vereadora e professora Rosa da Fonseca e os integrantes do movimento Crítica Radical. Luta foi em vão, mas pelo menos houve mobilização. Os viadutos foram construídos. Explicação oficial: os viadutos eram necessários, porque uma média de 70 mil carros e 274 ônibus trafegavam todo o dia pelo trecho, e ocasionavam demora em média de 30 minutos na área. Com os viadutos, esse tempo teria caído para três minutos. Alguém já foi checar isso? 
    
O Parque do Cocó(foto) existe de fato e não de direito. Para o advogado e membro do movimento ambientalista SOS Cocó, Arnaldo Fernandes, em declaração prestada ao jornal O Estado, de Fortaleza, em 5 de fevereiro deste ano, “um dos grandes fatores que incentivam a degradação e a ocupação indevida de espaços verdes que deveriam ser protegidos é a ineficiência do decreto estadual (nº 20.253) de 05 de setembro de 1989, que foi expandido em 08 de junho de 1993, e que cria o Parque Ecológico do Cocó. O texto declara o espaço de 1.155,2 hectares, na época, como área de utilidade pública para desapropriação. Os trabalhos de retirada de propriedades privadas irregulares nunca foram realizados”.
     “Esse decreto nunca foi concretizado porque não foram feitas as desapropriações dos terrenos no seu entorno. Pelas características singulares, o Parque do Cocó não pode conviver com propriedades privadas e requer uma proteção especial. Se os terrenos forem privatizados, ficam na iminência de construções, causando vários problemas que já conhecemos. Não podemos esquecer que estamos tratando de uma área extremamente sensível”, observa o advogado.

 MEIO AMBIENTE NO BRASIL
     Vale relembrar o histórico da questão ambiental no Brasil. O País começou a preocupar-se com o meio ambiente apenas antes da metade do século XX, quando houve a tentativa de regulamentar a exploração dos recursos naturais: borracha, madeira, água. Conforme o Almanaque Abril, datam de 1937, governo Getúlio Vargas, o Código Florestal e o Código de Águas.      Mas a chamada “consciência ecológica” é muito mais recente, vem dos anos 70 para cá. Em 1967, cria-se o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), substituído em 1989 pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama). Em 1990 cria-se a Secretaria de Meio Ambiente da Presidência da República, transformada depois em Ministério.
SUSTENTABILIDADE
     Outro conceito ganha importância: o do desenvolvimento sustentável, que ressalta a preservação de recursos naturais e dos ecossistemas para as gerações futuras, a melhoria da qualidade de vida e a sobrevivência das empresas. Ainda segundo o Almanaque Abril 2015, o conceito de sustentabilidade foi definido em 1987, no documento Nosso Futuro Comum, também chamado de Relatório Brundland, elaborado pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, da Organização das Nações Unidas (ONU).
MEIO AMBIENTE E QUESTÃO SOCIAL
A conscientização da sociedade tem a ver com a questão social e o meio ambiente, tema que deve merecer muita atenção dos gestores públicos e da população, de uma maneira geral, tanto a que vive nas grandes cidades quanto a que habita em cidades médias, pequenas e nas áreas rurais. Digno de registro é o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) elaborado pela assistente social Regina Parente (foto) intitulado O Serviço Social no Meio Ambiente no qual ela aborda, com muita propriedade, essa questão:
“Ressalta-se que o serviço social tem uma larga história de intervenção visando a atender as camadas excluídas e marginalizadas, tendo o compromisso com a justiça social, expressados no eco e agregados naqueles que procuram estabelecer cumplicidades entre a construção de conhecimentos para uma sociedade, justa, igualitária e sustentável. As políticas sociais são classificadas e definidas mediante as suas especificidades e objetivos, sendo preventivas, curativas, primárias, secundárias terciárias, apresentada conforme o público alvo, onde a mesma teve a sua origem no capitalismo advento da Revolução Industrial, através das mobilizações executadas pelas as classes operárias que passou pelas as contradições sociais proferidas pela a classe dominante, e neste contexto a política social ganha destaque por possuir a mediação entre as demandas sociais e também a intervenção governamental, sendo estratégia dos conflitos existente entre as classes, a qual a assistência social é uma política que garante os direitos sociais, dentre outros”.

Conclui Regina Parente: “O serviço social é uma profissão muito primordial no contexto do meio ambiente, pois é uma temática nova no trabalho profissional do assistente social, mas que posteriormente será grande destaque na sociedade, por conta de realizar ações sociais na melhoria de vida das pessoas e também na conscientização do valor das pessoas conforme seus direitos e deveres, terem responsabilidade e compromisso com o meio ambiente, assim preservando a natureza".

O texto completo do trabalho pode ser lido neste link: http://pt.slideshare.net/alavieira/regina-tcc