terça-feira, 30 de maio de 2017

Viagem por quem sabe amar uma cidade, diz Mapurunga sobre o Dicionário Amoroso do Recife, de Urariano Mota

O escritor, poeta e dramaturgo cearense José Mapurunga fez, a pedido deste blog, comentário sobre o livro Dicionário Amoroso do Recife, de autoria do escritor e jornalista pernambucano Urariano Mota.
     José Mapurunga é autor de mais de 20 peças teatrais, entre as quais Farsa da Panelada, Auto da Camisinha e Auto do Rei Leal. A Farsa do Panelada foi premiada no 2º Concurso Nacional de Dramaturgia - Prêmio Carlos Carvalho, da Prefeitura de Porto Alegre (RS). Recentemente lançou o livro Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará, em Fortaleza e na própria Viçosa, terra natal do autor.
O pernambucano Urariano Mota é autor do livro Soledad no Recife, onde narra os últimos dias de Soledad Barreett, mulher do cabo Anselmo, entregue pelo dedo-duro à repressão e assassinada. Seu último livro é O Filho Renegado de Deus, primeiro lugar no prêmio Guavira de Literatura 2014.
Eis o comentário de Mapurunga sobre o livro de Urariano Mota,
      
    Recife, cidade das maravilhas
             José Mapurunga

     Chegou às minhas mãos, emprestado pelo Paulo Verlaine, o Dicionário Amoroso do Recife, de autoria do escritor e jornalista Urariano Mota. Não houve verbete que deixei de ler. Na excelente prosa do autor, fiz uma viagem ao Recife profundo, a uma cidade de maravilhas, talvez perceptíveis apenas por quem sabe amá-la, e/ou porque quem sabe desfrutar o prazer de morar em uma cidade: ou ganham a vida ou frequentam os mercados públicos tradicionais, repletos de presença de espírito; os que se dedicam à arte, como o fotógrafo guiado pelo instinto, ou o escultor que criou para si um mundo ideal, ou o gênio rebelde do violão, ou os poetas para quem o que mais importa é a poesia, como aquele, de nome Valmir Jordão, que pede em versos para que não culpem às putas pelo comportamento nefasto dos filhos. Um Recife de frevo, de foliões famosos e anônimos, talvez o melhor carnaval do mundo, certamente sim para os que o brincam. No mais, a cidade com seus heróis populares pouco reconhecidos, mas realmente heróis.
     Points que os turistas tanto gostam são pouco citados no livro, no entanto o autor, de forma amorosa, homenageia o bairro Zumbi, além de festejar botequins, teatros, igrejas barrocas, bem como a sinagoga que dizem ser a mais antiga das Américas, e o Terreiro do Pai Adão, consagrado a Xangô, em funcionamento desde 1875. No Recife amoroso de Urariano, celebridades como Gilberto Freire, Joaquim Nabuco, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Ariano Suassuna e Reginaldo Rossi dividem páginas com outras pessoas caríssimas ao coração da cidade.



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segunda-feira, 1 de maio de 2017

Mapurunga lança livro e recebe homenagem em Viçosa do Ceará

O lançamento do livro Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará, do escritor José Mapurunga, transformou-se também em homenagem ao autor na sua terra natal, graças à iniciativa do secretário municipal Aníbal José Sousa (Cultura e Meio Ambiente), com apoio do prefeito Firmino Arruda, de Viçosa do Ceará.
O Teatro Pedro II, local do lançamento-homenagem, viveu, a partir das 20 horas de sábado último (29/4), momento de muita emoção, em acontecimento que reuniu autoridades, escritores, historiadores, parentes e amigos de José Mapurunga. A secretária de Educação Andrea Ribeiro representou o prefeito Firmino Arruda na solenidade.
     Na abertura, o secretário Aníbal José Sousa ressaltou a importância do evento, enalteceu a carreira literária do autor e o trabalho de pesquisa histórica e resgate sentimental do livro. Declarou que o lançamento poderá dar início a outros atos culturais no histórico Teatro Pedro II e conclamou a comunidade viçosense a prestigiar aquele espaço de valor histórico, cultural e sentimental.
A professora Teresa Cristina Mapurunga Miranda Magalhães, prima do autor, também se referiu à trajetória literária de José Mapurunga, escritor e dramaturgo reconhecido nacional e internacionalmente (a peça teatral O Auto do Panelada foi encenada em Maputo, capital de Moçambique), ao mesmo tempo em que destacou a ligação sentimental do escritor com sua terra natal.
     A apresentação oficial de Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará esteve a cargo de Tiago Peres Reial que mencionou vários trechos do livro, destacando aspectos históricos, culturais, geográficos, sociais e curiosidades (lendas e narrativas populares) do município apresentados, no livro, em ordem alfabética.
HOMENAGEM A ZÉ MÚSICO
     Momento especial foi a dupla homenagem prestada a Mapurunga e a José Alves Ferreira, o Zé Músico, notável seresteiro e violonista de Viçosa do Ceará, já falecido, a quem é dedicado um capítulo do livro.  Mairton e Francimário Ferreira, filhos de Zé Músico, também instrumentistas, compareceram à festa literária no Teatro Pedro II, com outros colegas. Na ocasião, apresentaram números musicais para a plateia.
     Heloísa Mapurunga, outra prima do escritor, cantou, no palco, acompanhada pelos músicos, dois verdadeiros hinos viçosenses: uma marchinha carnavalesca, de autoria de José Mapurunga, sucesso durante vários anos nos bailes carnavalescos da cidade; e a canção Saudade, sempre cantada por Zé Músico nas serenatas que começavam embaixo da estátua de Clóvis Beviláqua, na Praça da Matriz, narrada no Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará. A música, gravada inicialmente em ritmo de valsa pelo paulista Jayme Redondo no ano de 1929 foi adaptada posteriormente para um estilo mais alegre, transformando-se em samba. Era nesse último ritmo que Jayme Redondo a cantava.
     A secretária de Educação Andrea Ribeiro fez uso da palavra e disse de sua grande alegria de desempenhar a missão de representar o prefeito Firmino Arruda na solenidade, ela, que também é prima do escritor e homenageado. Ela recebeu, na ocasião, o livro das mãos de José Mapurunga.
      O historiador Gilton Barreto, autor do livro Viçosa do Ceará Sob Um Olhar Histórico, fez aprofundada análise de Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará, contribuindo para abrilhantar a noite de sábado último no Teatro Pedro II.
No final, um coquetel foi servido aos presentes no pátio do teatro.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará por José Mapurunga

O escritor José Mapurunga lança neste sábado (29/4) o livro Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará, na própria Viçosa do Ceará, terra natal do autor. O evento ocorrerá no histórico Teatro Pedro II (tema de capítulo do livro), às 19h30, numa promoção da Secretaria Municipal de Cultura e Meio Ambiente viçosense, tendo à frente o secretário Aníbal José Sousa.  O prefeito José  Firmino  de Arruda deverá estar presente ao acontecimento que reunirá outras autoridades, intelectuais, pesquisadores, lideranças  do município e convidados.
     O livro já havia sido lançado em Fortaleza no último dia 14 de fevereiro, no auditório Murilo Aguiar da Assembleia Legislativa do Estado, em acontecimento prestigiado por escritores, integrantes da colônia de Viçosa do Ceará radicada na capital cearense, amigos e admiradores do trabalho de José Mapurunga, autor de mais de 20 peças teatrais, entre as quais Farsa da Panelada, Auto da Camisinha e Auto do Rei Leal.
     Roteiros e guias sentimentais de cidades e outros lugares sempre são leitura atraente, mas, quando burilados pelas mãos de escritores e poetas, tornam-se ainda mais valiosos. É o caso do Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará, escrito pelo poeta, escritor e dramaturgo José Mapurunga, meu amigo e antigo companheiro das lutas estudantis do ano mágico de 1968.
     O autor mergulha na história, geografia, flora, fauna, culinária, arquitetura religiosa, narrativas reais e lendas populares de Viçosa do Ceará, sua terra natal, sempre lembrada por ele em seus escritos anteriores e em conversas com amigos. Agora, essas lembranças e pesquisas transformam-se em livro, mais um ponto marcante na trajetória de José Mapurunga.
Writing a poem is discovering (“Escrever um poema é descobrir”, dizia o poeta norte-americano Robert Frost). Nessa viagem sentimental através de séculos e décadas, Mapurunga faz interessantes descobertas.  Vêm à tona histórias  - algumas alegres e curiosas, outras tenebrosas – ouvidas pelo menino Mapurunga  dos  seus pais, avós, tios avós e outras figuras marcantes da cidade. O texto tem a forma de prosa, mas com toque poético, criativo e mesclado, aqui e acolá, com o humor discreto do autor. A ordem alfabética dos assuntos (ou verbetes) possibilita ao leitor iniciar o livro pelo tema que julgar mais interessante.
Com 262 páginas, Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará foi editado e impresso pela Expressão Gráfica e Editora. A foto da capa, de Daniel Carneiro, lembra paisagem europeia, mas retrata fenômeno típico de Viçosa: um denso nevoeiro e árvores seculares, com um homem abrigado por um guarda-chuva. O design da capa é de Natália Mapurunga e Gilberlânio Rios. A coordenação editorial é de Daniel Monteiro.
Transcrevo trechos de alguns capítulos do livro para dar uma ideia da dimensão do trabalho de José Mapurunga:
Assombrações
No passado, quando o motor da luz dava dois sinais antes deixar as ruas de Viçosa na mais completa escuridão, nove horas da noite, as almas penadas tinham licença para assombrar os vivos. Frequentes eram as noites em que elas apareciam. Visagens e vivos eram vizinhos. Mesmo dentro de casa, alta madrugada, sempre havia alguém tremendo de medo, ouvindo nitidamente pisadas estranhas sobre as pedras toscas que pavimentavam as Ruas. Ou ouviam pisadas semelhantes de alguém que já havia morrido. Coisas assim que arrepiavam os mais descrentes... A chegada da energia de Paulo Afonso, no final da década de 60, expulsou a maior parte desses entes do além, que então se refugiaram nos sítios, nas proximidades de pequenos cemitérios avoengos, no meio do mato, pertinho das capelas familiares onde repousam os ossos de ancestrais teimosos em não largar o que amaram em vida.

Cachaça
... Meu tio Chico Caldas, entusiasta da cachaça viçosense, comprava regularmente os melhores exemplares produzidos e envelhecidos em toda região. Aos amigos que adentravam na sua casa servia doses em copinho de vidro. Aos visitantes, presenteava com litros do produto, o que muito ajudou a construir a fama da cachaça artesanal produzida em Viçosa.
Enéas Cavalcante, no seu livro de memórias denominado Evocações fala de engenhos de cachaça da passagem do século 19 para o 20: o do seu avô Mariano Lopes, no sítio Bananeiras, e na fábrica de Cândido do Espírito Magalhães, no Careta. Enéas também insinua que até o vigário José Ferreira da Ponte, que esteve à frente da paróquia entre 1905 e 1910, mantinha fabriqueta de cachaça no Sítio da Santa, o Catinguba, hoje um bairro da cidade.
Cauim
É uma bebida alcoólica de origem ameríndia, feita em todo o Brasil, usando-se como matéria prima mandioca...  Macaxeiras eram descascadas e cozinhadas em caldeirões de barro. Cozidas e quase esfriadas, eram mastigadas por moças índias, que sentadas no chão, iam pondo a massa, já bem pastosa, em outras vasilhas. Depois, colocavam a massa em caldeirões com água, para nova fervura. Em seguida, punham o líquido resultante em potes, que eram bem fechados e enterrados até o meio, dentro das cabanas. Daí a dois dias a fermentação estava completa e o cauim pronto para ser bebido até a última gota. Primeiro era necessário que lhe fosse retirado, com uma peneira fina, o cabeço, uma nata que se formava no processo de fermentação da bebida. Pará que a bebida não estragasse tanto a mastigação da macaxeira quanto a retirada do cabeço deveriam ser feitos, exclusivamente, por moças virgens.
Culinária
As avós viçosenses repetem ainda hoje as antiquíssimas receitas que aprenderam com suas avós. Iguarias venerandas, apreciadas por pessoas de todas as idades e ensinadas às novas gerações. Viçosense morando em outros lugares, vez por outra, mata a saudade se deliciando com velhas pratos viçosenses, como a mui estimada Carne Seca com banana verde. Viçosense longe de sua terra adora receber petas de goma, bolinhos crocantes e doces que aprendeu a gostar quando criança. O afetivo paladar quer se sentir no aconchego de Viçosa.
No livro, José Mapurunga dá a receita das seguintes iguarias: bolinhos de goma, bolo de milho na pedra, carne seca com banana verde, esquecidos, doce de buriti, doce de jaca em calda, doce de jaca em massa, doce de laranja da terra.
Diabo Grande
Jurupariaçu na língua tupi. Principal da aldeia indígena da Ibiapaba onde padre Francisco Pinto e padre Luiz Figueira ficaram durante quatro meses, de setembro do ano de 1607 e até 11 de janeiro de 160. Enquanto estiveram em Ibiapaba, catequizaram os índios e fizeram negociações com tribos hostis, visando a abertura de um caminho por terra para o Maranhão. Antes, em 1604, aliado dos franceses, Diabo Grande participou da resistência ao avanço de Pedro Coelho. No livro intitulado Viçosa do Ceará – Notícias Esparsas, o autor, Joao Otávio Siqueira, diz: o padre francês Yves d´verteu, em sua viagem ao Norte do Brasil, pretende que o chefe indígena Jurupariaçu, o Diabo Grande, era filho de um conterrâneo seu com uma nativa tabajara.”
Igreja do Céu
Mesmo antes de ali haver um igreja, o local era conhecido como Morro do Céu. No romance Iracema, de José de Alencar, escritor propenso a criar lendas, tem nota de rodapé afirmando que no Morro do Céu nasceu o índio Felipe Camarão, herói das guerras contra a Invasão Holandesa...A estátua do Cristo na torre da Igreja foi esculpida pelo italiano Agostinho Balmes Odísio, que fora aluno de Rodin, famoso escultor francês...Quando criança e adolescente subi inúmeras vezes a escadaria para cegar à igrejinha e em cima deslumbra-se com uma paisagem de tirar o fôlego.
Igreja Matriz
A Igreja Matriz é hoje tombada pelo IPHAN – Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. A inauguração se deu a 15 de agosto de 1700, pelo então superior dos jesuítas na Aldeia da Ibiapaba, padre Ascenso Gago.
Mapurunga discorre sobre as imagens de Santa Ana, de Nossa Senhora da Cabeça e se detém na descrição dos impressionantes painéis da Igreja da Matriz:
Um dos elementos importantes da Igreja Matriz de Viçosa é o forro do altar-mor, onde estão pintados 12 estranhos painéis. Quando criança, eu me distraía da missa para contemplar essas pinturas místicas, a imaginar histórias a partir do que eu via. Toda vez que vou a Viçosa os contemplo. Para Antônio Bezerra, eram inspirados em motivos bíblicos. Para o arquiteto Liberal de Castro, simbolizam virtudes cardeais, virtudes teologais e sentidos humanos. Sobre a autoria das pinturas, não existem pistas, apenas perguntas: seria algum padre ou irmão leigo da Copanhia de Jesus? Seria serviço contratado a terceiros pelos padres da Aldeia da Ibiapaba?
Matança da Tabatinga
Crime acontecido no sítio Tabatinga, distante sete quilômetros da cidade de Viçosa, em propriedade pertencente ao major Inácio José Correia, o Macaxeira. Eram 7 horas da noite do dia 6 de outubro de 17 quando a casa grande do major José Inácio (onde hoje é o engenho de cana do major Raimundo Nestor Mapurunga) foi assaltada por membros de uma família que residia nas proximidades. O ataque foi comandado por Francisco Gonçalves da Costa, o “Velho Juriti”.
José Mapurunga relata que foram trucidadas 19 pessoas na chacina e cita os nomes das vítimas, entre as quais mulheres e crianças, pessoas da família do major Inácio, serviçais e vizinhos que tentaram defende-los. O major Inácio, paralítico, foi retirado do local antes da tragédia, mas seus familiares não escaparam à sanha dos inimigos.
Zé Músico
No final da década 1960, a energia de Paulo Afonso chegou a Viçosa, mas a iluminação pública da cidade, talvez por economia, era desligada por volta da meia noite Era a senha para começarem as serenatas. O ponto de encontro dos seresteiros era a Praça da Matriz, ao pé da estátua de Clóvis Beviláqua, assim que a luz apagasse. Nessas condições, algumas vezes marcava com Zé Músico e seguíamos pela madrugada, ele ao violão entoando cantigas. Tive a honra de prezar da amizade desse artista, de visitar sua casa e de conhecer o seu repertório. Tive o prazer de acompanha-lo em algumas das serenatas nas quais ele cantava e tocava violão com o apoio do cavaquinho de João Jonas e do pistom de Toinho Nicolau... Porém a marca de Zé Músico foi Saudade, que ele entoava para abrir e fechar suas cantatas., emocionando os corações viçosenses nas reuniões festivas e serenatas, pondo lágrimas nos olhos de quem ouvia e associava música e letra com boas recordações. Saudade tornou-se uma espécie de Hino Sentimental de Viçosa. Só mais tarde, em 2004, através do pesquisador Cristiano Câmara, conheci um pouco mais sobre essa música que tanto encantava e encanta os viçosenses. Liguei para ele, cantarolei e ele, surpreso, me pediu tempo para pesquisar, pois ainda não conhecia a cantiga. Menos de uma hora depois, ele retornou a ligação. Daí, tomei conhecimento que  Saudade era de autoria de Jayme Redondo. Esse autor nasceu em São Paulo em 190 e faleceu em 1952.  

O que foi transcrito é apenas uma amostra do livro de José Mapurunga. O leitor terá muito mais o que apreciar se adquirir o Roteiro Sentimental de Viçosa do Ceará.      

sábado, 29 de outubro de 2016

Votar nulo é ajudar o Capitão. O certo é votar em Roberto Cláudio.



     Na reta final do segundo turno da eleição municipal é hora de reflexão. Eleitor de Luizianne Lins (PT), eu agora começo a questionar até a necessidade da candidatura petista na primeira etapa da campanha. Vamos aos fatos e ponderações.
     Antes de entrar no mérito da questão, esclareço dois pontos importantes:
     1º - Estou a fazer essas considerações na condição de cidadão e de eleitor. Coloco-as em discussão para o chamado pensamento progressista de Fortaleza, responsável por grandes campanhas de candidaturas populares em passado distante (não tão longínquo no que se refere à História), outros ainda próximos para quem tem mais de 50 anos e alguns bem recentes para todas as gerações.  
     2º - Sou eleitor de Luizianne Lins (primeiro turno em 2016), no segundo turno em 2004 (no primeiro turno votei, com muita honra em Inácio Arruda, do PCdoB) e, no turno único em 2008. Em 2012, votei em Elmano Freitas, candidato de Luizianne, no segundo turno. No primeiro turno, votei, repito, com muita honra, em Inácio Arruda.
     Em suas duas administrações, Luizianne Lins preocupou-se com o bem-estar (saúde e educação) da população da periferia e melhorou, em muito, o padrão das escolas municipais. São fatos incontestáveis.
     Agora, no segundo turno, é preciso refletir, de cabeça fria. Estamos hoje em cenário dos mais difíceis,  tenebrosos e adversos para as forças progressistas. Entre estas se incluem: esquerdistas, democratas autênticos, patriotas, democratas trabalhistas e defensores do Estado Democrático de Direito e da soberania do Brasil (nem todos e todas a favor das bandeiras da esquerda). O resultado do primeiro turno demonstrou: o bombardeio midiático incessante intensificado desde 2014 alcançou êxito em determinadas camadas populares. Os resultados (fatos) estão aí para quem quiser constatar..
    Sem rodeios e sem panos mornos,  o que se vê após os resultados do primeiro turno na maioria das capitais brasileiras? O risco de legitimação – pelo voto popular – do golpe mais covarde, indigno, cínico e antipopular praticado na história da República brasileira. Mais do que nunca é hora da união das forças anti-golpistas e populares.
     No caso específico de Fortaleza, deparamo-nos com as seguintes candidaturas no segundo turno:
     Roberto Cláudio (PDT), atual prefeito de Fortaleza, apoiado pelo grupo dos Ferreira Gomes, cujos expoentes máximos são os ex-governadores Ciro e Cid Gomes. Os Ferreira Gomes, não obstante todo o mandonismo e inúmeros defeitos, se colocaram na linha de frente na defesa do mandato da presidenta Dilma usurpado pelos golpistas. Têm-se mantido em oposição radical ao governo Michel Temer. O prefeito Roberto Cláudio também se posicionou a favor da presidenta Dilma e contra o golpe. Enquanto isso, o candidato a vice-prefeito de Roberto Cláudio, o deputado federal Moroni Torgan (DEM) votou a favor do golpe, além de ser conhecido pelo discurso truculento. Mas, é preciso que se diga, contrariando orientação do DEM, Moroni ausentou-se, do plenário da Câmara dos Deputados, nas duas votações da PEC 241 (Proposta de Emenda Constitucional), que encolhe o Brasil, dá marcha ré ao País por 20 anos e castiga as camadas populares de uma forma jamais ousada pela ditadura militar.
     Mas, quem está do outro lado?  Capitão Wagner, pela coligação PMDB/PR/PSDB/SD, candidato a Prefeito. Sabemos que, por trás desse conluio, está o que há de pior na política cearense: senador Eunicio Oliveira (PMDB), golpista milionário (com agravante: golpista traíra, vira-casaca, trânsfuga), político praticante do seguinte slogan: tenho dinheiro e compro tudo. Além disso, proprietário de grandes empresas de segurança. Esse homem vai querer uma Fortaleza segura e perder clientes ricaços?  Senador Tasso Jereissati (PSDB), golpista de primeira hora, plutocrata sempre disposto a votar contra os interesses do povo. Os demais partidos representam a escória do lixo golpista, a começar pelo partido do capitão Wagner: PR (o ex-presidente deste partido, Alfredo Nascimento, votou a favor do golpe por ter sido afastado  por corrupção do Ministério dos Transporte pela presidenta Dilma Rousseff); Solidariedade: este é presidido por Paulo Pereira da Silva, o famigerado Paulinho da Força. O nome dispensa comentários, mas só lembrando: ele já foi condenado na Justiça por improbidade administrativa e é réu no STF acusado de desviar dinheiro do BNDES.
     Mas voltemos ao primeiro turno, hoje percebo o erro da candidatura de Luizianne Lins e faço as seguintes indagações: a ex-prefeita agiu por vaidade pessoal? Ou a candidatura foi movida apenas pelo rancor contra os Ferreira Gomes? São pontos que coloco em discussão. Lembro que foi oferecida à tendência petista comandada por Luizianne Lins a candidatura a vice-prefeito na chapa de Roberto Cláudio. Se o convite tivesse sido aceito não existiria a candidatura de Moroni Torgan e as forças anti-golpistas estariam unidas em Fortaleza.
     O isolamento do PT no primeiro turno prejudicou bastante o partido na eleição proporcional: os petistas elegeram apenas dois vereadores. Poderia ter elegido três – ou até quatro representantes municipais – se tivesse feito uma coligação.
     Ressalte-se, a bem da verdade, que não foi apenas o PT o prejudicado nas eleições proporcionais. O PCdoB entrou numa esdrúxula coligação com o DEM e o PSD, elegendo apenas um vereador. Mesmo com a opção pela coligação majoritária (a prefeito) com Roberto Cláudio, se, para a Câmara Municipal, esta tivesse ocorrido com o PT, os resultados, com certeza, teriam sido melhores para os dois partidos.
     Na reta final da campanha do segundo turno surge movimento a pregar voto nulo. Essa decisão não beneficia Fortaleza. Votar nulo no segundo turno é prestar favor ao capitão Wagner e às forças obscurantistas e repressoras que se aglutinam em torno dele.
     A saída, para o eleitorado progressista, é o voto em Roberto Cláudio.

domingo, 4 de setembro de 2016

Francis Vale comenta livro de Galba Gomes e reafirma hegemonia do PCdoB no final dos anos 60 no CE

     O cineasta, compositor e advogado Francis Vale (foto), em mensagem (e-mail) enviada a este blog, faz comentário sobre o livro O Sonho é Realidade, escrito pelo odontólogo Galba Gomes.  e lançado em Fortaleza no último mês de julho. A publicação foi objeto de análise no Coluna da Hora em agosto passado e teve 569 visualizações.
     Francis concorda com o blogueiro sobre a omissão do autor no que se refere à hegemonia do PCdoB no movimento estudantil cearense no final dos anos 60. Destaca o início da organização do PCdoB no Ceará em 1965 (há exatamente 51 anos) e sua estruturação no movimento universitário a partir de 1966, trabalho que se estendeu ao movimento secundarista nos anos posteriores.
          Hegemonia
Eis a mensagem de Francis Vale: "Paulo, li seu comentário sobre o livro do Galba.Você tocou num ponto sobre o qual há uma omissão total por parte do autor e colaboradores: a hegemonia do PCdoB no movimento estudantil da época.
     Para entender aquela situação é preciso ir à questão política central. No final de 1965,quando resolvemos sair do PCB e organizar o PCdoB na UFC, houve uma longa discussão com críticas à política da esquerda antes do Golpe. Verificamos ( João de Paula, Pedro Albuquerque, Assis Aderaldo, Ozéas Duarte e Francis Vale) que a UNE e as UEEs estavam afastadas dos estudantes porque priorizavam palavras de ordem de caráter político geral e esqueciam os problemas específicos (falta de bebedouros, salas sucateadas, falta de vagas no Restaurante Universitário e nas Residências etc). 
     A partir dessa visão, passamos a ver que para mobilizar os estudantes para a luta política e ideológica seria necessário sensibilizá-los a partir de seus problemas mais diretos.Com a obtenção de pequenas vitórias íamos acumulando força para mobilizações maiores. A partir dessa nova visão, passamos a conquistar cargos nos diretórios e a ampliar nossa área de influência.
     Essa política de amplitude foi que possibilitou  a hegemonia que depois se estendeu ao movimento secundarista.

     Talvez isso explique o fato de aquele partido ( "com todos os erros, pecados e vícios") até hoje exercer influência no meio político cearense. Tanto que, em determinado momento, teve um senador, dois deputados federais, deputados estaduais e vereadores. Afinal, isso não surgiu do nada, mas da história de amplitude política ocorrida através dos anos. Ou teria outra explicação? Um abraço do Francis".  

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Sonho e realidade de Galba Gomes

Capa é projeto de Luís-Sergio Santos e desenho de Fausto Nilo

          Sótão, montanha, rio, campo/cidade – ou Coreaú/Fortaleza – os anos 60 – o movimento estudantil e as lutas contra a ditadura militar – são temas chaves do livro O Sonho é Realidade, de Galba Gomes.  O lançamento ocorreu em 19 de julho último, na Associação Brasileira de Odontologia-CE, na capital cearense.
     Festa abrilhantada pela calorosa, leve – sem jamais perder a profundidade – e bem-humorada apresentação de João de Paula Monteiro Ferreira, um mestre despretensioso – e arrebatador – da arte de falar em público.
      O projeto gráfico é do jornalista e professor Luís-Sergio Santos. A capa, com logotipo criado por Fausto Nilo para o antigo Diretório Central dos Estudantes (DCE) da metade e final dos anos 60, remete a antigos sonhos e lutas. Merece especial registro o erudito texto da orelha do livro, a cargo do professor – de Ética e Filosofia do Direito – Oscar d´Alva Filho.

          Sótão     
     Mas o que sótão, rio, montanha, campo e cidade e anos 60 (movimento estudantil e outras efervescências sociais e culturais) têm a ver com O Sonho é Realidade?
     Na cidade de Coreaú, terra natal do autor, havia (talvez ainda exista) uma casa com sótão que despertava no menino Galba o desejo de superação de conhecer o proibido, inacessível na sua intimidade, o, desejo de desvendar tudo considerado inexpugnável (o grifo em itálico – letras inclinadas – indica o texto do escritor).
     Poderia ser a vocação para a Ciência, a bendita curiosidade que levou nossos ancestrais às grandes descobertas? Insatisfação com a ordem pré-estabelecida? Busca de sublimação? (O sótão é, depois do teto, a parte mais alta de uma casa). Sótão leva-nos também a Carl Gustav Jung no livro Memórias, Sonhos, Reflexões. Ele também era atraído por um sótão, na infância.                                                       
     Leiam o livro e tirem suas conclusões.

               Rio
        Outro objeto do fascínio de Galba Gomes era o rio Coreaú:
     Mergulhar nas águas do gerava sensação de liberdade e alegria, de bem-estar com a percepção de ser este um lugar transformador, capaz de propiciar autonomia, decorrente da vontade inata de buscar afirmação na condição de ser um destemido e pronto para enfrentar o mundo.             Segundo o Dicionário de Símbolos, “o rio simboliza o fluir das águas e a fluidez das formas, a fertilidade, a morte, a renovação, a mudança constante. O filósofo grego dizia que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio. A correnteza do rio simboliza a corrente da vida e da morte”.

        Montanha
     E montanha? O autor de O Sonho é Realidade gostava de contemplar, quando menino, em Coreaú, a silhueta da Serra Grande (Ibiapaba) e já fazia inquietantes indagações: 
    O mundo vai além daquela serra? Como é o além daquela serra? Há outras terras e outra gente por detrás daquela serra? Essa reflexão, sem resposta, significava de maneira empírica e fantasiosa a busca do sentido do espacial, do temporal, da existência de outras vidas na visão interrogativa do sujeito ainda criança, visão estimuladora e compositora do sentido inato dos indivíduos na busca da integração, no mundo e para o mundo.
     Essas palavras precisam de explicação?
     Fiquemos, por enquanto, em sótão, rio e montanha. Campo está incluído nos dois primeiros ou em outros tópicos seguintes deste comentário. Cidade (Fortaleza), anos 60 e movimento estudantil serão comentados mais adiante.
              
           Convergências    
              Conheço o odontólogo, psicólogo e professor Galba Gomes desde o final dos anos 70 ou início dos 80. Fui apresentado a ele por um amigo. comum: o jornalista Gervásio de Paula, o qual, na época, editava jornal da Associação Brasileira de Odontologia (ABO)- secção do Ceará.
         Poderíamos ter-nos conhecido muito antes, porque temos vários outros pontos em comum. O primeiro deles: sou parente por afinidade – ou contraparente – do Galba Gomes.
             Outras convergências: também morei no bairro Jacarecanga, estudei no Colégio Cearense, participei do movimento estudantil nos anos 60. Fomos presos políticos (eu por quatro meses, ele por três dias, em datas, ocasiões e motivos diferentes).
          Para completar: gostamos do Centro de Fortaleza e fomos filiados, nos anos de 80 e 90, ao Partido Democrático Trabalhista - PDT.
           Temos divergências, aprofundadas e radicalizadas a partir de 2014. O relacionamento pessoal, no entanto, não foi afetado. Faço opção, neste espaço, em discorrer apenas sobre as convergências e a respeito do livro O Sonho é Realidade.

O autor com a revisora do livro Rejane Barros
               
Contraparente         
     Segundo o dicionário Caldas Aulete, contraparente é o “parente por afinidade; pessoa com a qual o vínculo de parentesco se estabelece em decorrência de casamento com algum parente direto”.
     Descobri recentemente: um primo do Galba, Edson Gomes, também odontólogo, já falecido, era casado com uma prima minha, a professora de Música (piano) da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Rita Maria Pereira Gomes. Então somos primos por afinidade.

               Colégio Cearense         
     Outro elo significativo: o Colégio Cearense do Sagrado Coração (Marista), onde Galba Gomes foi aluno interno do final da década de 50 a 1960. Estudei ali, de 1963 a 1968, isto é, da primeira série do antigo Curso Ginasial ao segundo ano do então Curso Científico.
     Deixemos Galba Gomes falar sobre o Cearense em O Sonho é Realidade:
          O Colégio Cearense gerava um impacto forte para os novatos que ali chegavam. O lugar era bem elitizado, a arquitetura muito bonita, uma quadra de esportes que causava a admiração da garotada, arquibancada de cimento com quatro lances, era um mundo novo para todos. Até a água usada era mineral magnesiana, da fonte lá existente.         
          A arquitetura permanece a mesma, mas o Colégio Cearense fechou em 2007, para tristeza de muitos dos seus ex-alunos.  O antigo prédio foi preservado (tombado) pelo patrimônio histórico do município de Fortaleza e do Estado do Ceará. Para garantir ainda mais a integridade do conjunto arquitetônico seria bom que a União (governo federal) adotasse idêntica medida. A fonte de água mineral teve de ser fechada, muito antes do colégio, devido às infiltrações poluentes do lençol freático de Fortaleza. Uma lástima.

         Centro de Fortaleza
     Eu e Galba – outra afinidade – somos admiradores e entusiastas da malha central da capital cearense, hoje desprezada pelos poderes públicos, empresariado e por alguns setores da população.
     O Centro, para a minha geração e a do Galba, era o ponto de convergência da provinciana capital dos anos 50 e 60.  Eu, nascido e criado em Fortaleza, com algumas passagens pelo Interior do Ceará (Guaramiranga e Palmácia, ambas no Maciço de Baturité). Ele, natural de Coreaú, sua inesquecível Palma (antigo nome da cidade da Zona Norte cearense), veio para Fortaleza ainda criança e descobriu os encantos da capital ainda provinciana. Tornou-se fortalezense de coração.
       Mesmo com a degradação e as opções dos shoppings centers, a área central continua a povoar o meu imaginário. Anima-me a esperança, talvez sonho irrealizável, de ver o Centro, principalmente o seu ícone maior, a Praça do Ferreira, voltar aos seus tempos áureos.  
          Ninguém melhor do que Galba Gomes para expressar esse sentimento no livro O Sonho é Realidade:
           A Praça do Ferreira. Nada acontece nesta cidade que não surja ou repercuta ali. É um lugar que energiza, charmoso, bonito e privilegiado pelo próprio clima sempre ameno”.

            Jacarecanga
     Galba Gomes descreve, com rara maestria e muita sensibilidade, o bairro do Jacarecanga dos anos 60:
     Em 1962 mudamos de endereço e fomos morar na Av. Francisco Sá, no bairro Jacarecanga que possuía uma arquitetura encantadora, habitado por algumas famílias ricas da época. Tinha casas bonitas, bem estruturadas, um local organizado e gostoso de morar. Hoje o bairro se descaracterizou coma demolição de vários de seus belos sobrados.
    O escritor relembra figuras e fatos do Jacarecanga com os quais convivi ou presenciei. Eu morava na rua paralela à Avenida Francisco Sá, Rua Monsenhor Dantas, continuação da Rua São Paulo, na antiga Vila José Pinto do Carmo. O início da Avenida Francisco Sá, onde morou Galba Gomes, era habitado por famílias da burguesia ou alta classe média.
     Um dos tipos marcantes era o Clorimel, esquerdista, possivelmente ligado ao PCB, e proprietário de um bar. Eu não tinha muito contato com o Clorimel. Quem era ligado a ele era outro grande amigo meu, o hoje farmacêutico Francisco Edson Pereira, morador do bairro naqueles tempos.
     Eu frequentava a casa de um irmão do Clorimel, o Cocibel. Percebe-se que os pais de ambos não foram – digamos – muito felizes na escolha dos nomes dos filhos: Clorimel e Cocibel... Imaginem!
     Galba revive episódio do qual eu lembro muito bem. A pregação de um pastor evangélico, metido a milagreiro, na Praça Gustavo Barroso (Praça do Liceu). Atraía multidões, fenômeno comentado em toda a cidade. O show do religioso durou cerca de uma ou duas semanas, sempre no início da noite. Deixemos o autor narrar o fato, no qual esteve envolvido o esquerdista Clorimel:
     No início dos anos 60 apareceu um milagreiro charlatão que reunia milhares de pessoas na Praça do Liceu. Uma noite a molecada pediu emprestada a cadeira de rodas de um portador de deficiência, vizinho, e levaram o Clorimel na cadeira, bêbado, para obter o milagre, com o intuito de desmistificar e debochar o charlatão. Quando o pregador charlatão anunciou que os cegos iriam enxergar, os aleijados andarem, o Clorimel aos gritos começou a pular e subiu ao palanque onde o milagreiro anunciou o falso milagre.
     Depois do relato do Galba sobre o fato, deixo minha impressão: ainda hoje eu recordo o nome do “milagreiro”. Era um pastor evangélico e norte-americano, jovem, talvez não tivesse 30 anos. Falava em inglês para o público e necessitava sempre da ajuda de um intérprete para tudo que dizia. Tenho excelente memória e, apesar de o nome não ser citado no livro, este logo me veio à mente: Morris Cerullo. Pesquisei no Google e Youtube. Para surpresa minha descobri que o malandro ainda hoje está vivo e continua a fazer as mesmas presepadas “milagreiras”. Tem 81 anos. É o precursor e inspirador de canalhas – todos golpistas – do tipo Silas Malafaia, Marcos Feliciano, pastor Everaldo – e outros enganadores da boa fé do povo simples. Doidos...  Por dinheiro.

              Movimento secundarista/golpe militar
     Galba Gomes participou do movimento estudantil desde o início da década, no Liceu do Ceará. Ligou-se, depois, aos trotskistas da clandestina IV Internacional, sem ser militante, quando era universitário; eu, secundarista, em 1968 e 1969, militante do, também clandestino, na época, Partido Comunista do Brasil - PCdoB.
     Não foi no conservador, rígido e elitista Colégio Cearense (Marista) que Galba Gomes deu seus primeiros passos no movimento estudantil, mas no também tradicional, porém muito mais aberto, Liceu do Ceará:
    Ingressar no Liceu do Ceará em 1960 foi algo de muita significância. Estudar lá possibilitou a visão crítica com a forma de ver e sentir o mundo, de forma diferente, crítica. Teve grande valor para formar a personalidade de futuro militante, na política estudantil, na luta pela melhoria e direito a uma vida de qualidade e respeito humano.
     O inconformismo com as injustiças sociais, inclusive o racismo, vem, no entanto, de Coreaú, e é contado nessas memórias. Galba, criança de classe média, já se incomodava com o fato de ver seus companheiros de brincadeiras, meninos pobres, sem acesso à  educação, saúde e até a ima alimentação mais consistente. Festas para brancos e pretos (ou pardos) no Coreaú dos anos 50 também lhe causavam justa indignação. 
     O autor escreve, com leveza e sensibilidade de memorialista, sobre a agitação e a polarização esquerda/direita do início e metade dos anos 60, que culminaram com a deposição do presidente João Goulart e a instauração da ditadura militar em 1964.    
     Pela ótica de Galba chegam-nos pessoas e episódios marcantes daqueles anos dourados: o CLEC (Centro Liceal de Educação e Cultura), versão liceísta e secundarista do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes), que aglutinava os estudantes universitários em termos nacionais.  O CLEC empreendeu campanhas e forjou grandes lideranças. As refregas dos estudantes do Liceu com soldados do Corpo de Bombeiros (seus vizinhos) e com a empresa de transporte coletivo do Sr. Oscar Pedreira, da linha Jacarecanga-Centro (e vice-versa), com os famosos e inesquecíveis ônibus de cor verde-escura.
     Entre esses líderes destaca-se a figura lendária do Parangaba, cujo nome era Carlos Augusto de Lima Paz, um dos maiores líderes secundaristas do início dos anos 60.
     No movimento secundarista e universitário, antes de 1964 e até um pouco depois, já se delineavam disputas de influência entre militantes do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e as organizações Juventude Estudantil Católica – JEC -, secundarista, e Juventude Universitária Católica – JUC que deram origem, um pouco mais adiante, à Ação Popular, de tendência católico-esquerdista. Galba Gomes nos fala de uma terceira força, a Juventude Independente do Liceu (JIL), da qual alguns (não todos) se ligariam depois aos trotskistas, inclusive o próprio Galba Gomes.
     A partir de 1966, 1967 e 1968, outra força de esquerda se tornaria preponderante no Liceu e em quase todo o movimento estudantil: o Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

          1968: antecedentes e consequências
     Se o início da década de 60 (período que antecedeu a deposição do presidente João Goulart) foi muito agitado, o ano de 1968 teve muito mais agitação e efervescência cultural. Marcou o auge da resistência estudantil ao golpe militar de 1964. Por outro lado, aquele ano é divisor também da repressão da ditadura contra os movimentos populares, inclusive o estudantil.
     O ano de 1965 registra o ingresso de Galba Gomes na Faculdade de Odontologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). O contato mais aprofundado com as tendências de esquerda a disputarem a preferência da massa estudantil universitária: Partido Comunista Brasileiro (PCB), Ação Popular (AP), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), IV Internacional ou Partido Operário Revolucionário Trotskista - PORT, a preferida do jovem estudante de Odontologia.
     Aí vai minha primeira – e única – crítica ao livro: tenho a impressão  que o autor procura minimizar a importância do PCdoB no movimento estudantil (universitário e secundarista) naquele período. O PCdoB era, em Fortaleza, a principal força desse segmento em 1968 (com demonstrações de vitalidade já em 1966 e 1967). Como diria Caetano Veloso em Tropicália, no Ceará, o PCdoB organizava o movimento! Esse fato fica, no entanto, encoberto nas páginas de O Sonho é Realidade.  
     Em termos nacionais tal situação era inusitada, nos anos finais da década de 60. O PCB – Partido Comunista Brasileiro – havia se retirado do movimento estudantil. No Rio de Janeiro (na época sede da cidade-estado da Guanabara, cuja capital era a própria cidade do Rio de Janeiro, vizinha do velho Estado do Rio de Janeiro, que tinha como capital Niterói. Imaginem a confusão para os jovens de hoje entenderem isso) e São Paulo, as grandes caixas de ressonância nacionais, o movimento estudantil era liderado pelas chamadas Dissidências do PCB (Vladimir Palmeira, do Rio, e José Dirceu, de São Paulo, rompidos com esse partido) e pela Ação Popular – AP - (Luís Travassos). Os trotskistas, embora tivessem grandes, aguerridos, respeitados e preparados líderes em quase todas as capitais brasileiras, não dispunham de nenhuma liderança com a visibilidade nacional dos nomes citados.
    Por que o PCdoB tinha (e ainda tem) tanta força em Fortaleza?
     Dois motivos essenciais:
     1º - Em Fortaleza, os jovens que discordavam da posição conciliadora do Partido Comunista Brasileiro (PCB) não criaram grupo do tipo Dissidência da Guanabara (DI-GB) e Dissidência de São Paulo (DI-SP). Não houve uma DI-CE: Os dissidentes do PCB fortalezenses abrigaram-se, em sua grande maioria, no PCdoB, que se proclamava legítimo herdeiro e continuador do pai de todos os PCs: o antigo Partido Comunista do Brasil (PCB. O "do" não entrava na sigla. Foi entrar depois da criação do PCdoB);
     2º - No movimento estudantil, os militantes do PCdoB, embora adotassem postura radical contra a ditadura militar, mantinham também uma política “pé-no-chão” no que se refere às reivindicações específicas dos estudantes: melhoria do ensino curricular e das instalações das faculdades e colégios (salas de aulas condignas, bebedouros, etc).  Enquanto isso, militantes trotskistas e até da AP deliravam em grandes elucubrações anticapitalistas, a pregar a “revolução socialista” ou “proletária”. A massa estudantil – formada por meros simpatizantes da esquerda e muitos setores apolíticos – preferia o discurso pé-no-chão do PCdoB.  
    
          Omissões
     Galba Gomes é muito melhor quando disserta, narra ou descreve o movimento estudantil do começo dos anos 60, isto é, antes da ditadura militar. Na parte referente à agitação pós-ditadura, principalmente o auge, 1968, vemos um Galba cauteloso e pouco detalhista, principalmente no que diz respeito à disputa entre as tendências de esquerda.
     Ao falar da reorganização do movimento estudantil, no período da ditadura militar, porém antes do Ato Institucional Nº 5 (AI-5),  Galba Gomes relata a eleição do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Ceará (UFC) em 1966, numa frente de esquerda, quando foi eleito presidente o estudante de Economia Homero Castelo Branco. Houve ainda eleição dos respectivos diretórios acadêmicos. Até aí tudo bem.
     Refere-se também à eleição de João de Paula Monteiro Ferreira, aluno da Faculdade de Medicina, à presidência do DCE, em 1967, com apoio das diferentes tendências do movimento universitário. A eleição de João de Paula para a presidência do DCE é narrada na página 152 de O Sonho é Realidade, mas o fato de João de Paula, na época, ser militante do PCdoB, só vem a ser dito apenas na página 162 do livro. Dez páginas depois.
    Mais adiante, no capítulo  5, com título 1968: Tendências Ideológicas e subtítulo cisão, o autor, de repente, se torna incisivo e detalhista:
     Em março de 1968 irrompe uma dissidência no DCE e três das tendências ideológicas decidem lançar chapa ao DCE. O PCdoB lança José Genoino, os Trotskistas lançam Arlindo Soares. A AP (Ação Popular) Mariano Freitas, narra Galba.
     É a minha ressalva ao livro: o PCdoB – emergente (e já majoritária tendência de esquerda) no Ceará – elege os presidentes do Diretório Central dos Estudantes da UFC em dois anos consecutivos (1967 e 1968) e essa dupla vitória passa quase despercebida nas páginas de O Sonho é Realidade.
Ressalte-se ainda que o PCdoB  já controlava, em 1968, o Centro dos Estudantes Secundaristas do Ceará (CESC). Era, sem dúvida, a força hegemônica de todo o movimento estudantil em 1968, ano de sonhos e de lutas.  
    Maior importância é dada no livro à eleição de Inocêncio Uchoa, trotskista filiado à IV Internacional, à presidência do Centro Acadêmico Clóvis Bevilacqua da Faculdade de Direito da UFC. Diretório Acadêmico da mais alta relevância, não resta a menor sombra de dúvida, mas abaixo da magnitude do Diretório Central dos Estudantes (DCE), entidade representativa de todos os universitários cearenses na época.  

         Lutas, formatura e o discurso não proferido
     O escritor transporta-nos para outros fatos relevantes ocorridos nos anos de 1967 e 1968 em Fortaleza: passeata dos 20 mil, quebra-quebra do USIS (United States Information Service), escritório ligado à embaixada dos EUA no Brasil; repressão policial, os Congressos da UNE de 1967 (Valinhos-SP, do qual Galba foi participante) e o de Ibiúna, também em São Paulo, onde cerca de mil participantes foram presos pela repressão.
   Chegam-nos também, pelas páginas de O Sonho é Realidade, o auge da repressão e do obscurantismo que se abateu pelo País com a decretação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), o golpe dentro do golpe.
     A truculência do AI-5 bateu forte em cima de Galba Gomes e de todos os concludentes da UFC: ele seria o orador oficial da solenidade de colação de grau que se realizaria na Concha Acústica da UFC. Por se recusar a modificar trechos do discurso que seria proferido na sessão solene, peça oratória de teor moderado, mas incisivo e fiel aos seus princípios do orador, a festa foi cancelada.
     O discurso só viria a ser proferido, pelo mesmo orador, 30 anos depois, no dia 12 de dezembro de 1998, em memorável solenidade na mesma Concha Acústica, sob a brisa sagrada e benfazeja da liberdade, nas palavras de Galba Gomes.

Episódios tragicômicos
   O autor nos oferece de brinde, talvez para aliviar leitura de época tão agitada, episódios  por ele chamados de trágicos e jocosos: machismo na esquerda (no qual revela mais o puritanismo dos militantes do que o machismo), detenção na DOPS (sua primeira prisão), Antonio Morais (o famoso vereador 203 da campanha de 1974), o episódio da comuna cearense da Reitoria (ocupação daquele espaço pelos estudantes em 1968), conhecendo Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Célia Guevara.
     Sobre a visita do casal Sartre-Simone de Beauvoir a Fortaleza, o escritor comete um engano: diz que o fato ocorreu em 1962. Este jornalista, que já foi ombudsman do jornal O Povo, não resiste e corrige: a visita dos dois franceses famosos ocorreu dois anos antes – 1960 – e mereceu destaque da imprensa nacional. Sartre e La Beauvoir visitaram cerca de dez cidades brasileiras, inclusive Fortaleza.    
         Intervenções brilhantes
    O Sonho é Realidade vem intercalado com artigos de pessoas companheiras da trajetória de Galba Gomes, além da apresentação de João de Paula Monteiro, prefácio de Leonardo Pildas e posfacio de Urânia Almeida Gomes (esposa do autor). Temos ainda colaborações de Wilson Gomes Belchior Fernandes, Raimundo Leopoldo Meneses Neto, Eduardo Gomes Machado, Antonio Soares Brandão, Pedro Albuquerque, Mércia Pinto, José Arlindo Soares, Inocêncio Uchoa e Sérgio C. Buarque. É o que se pode chamar de intervenções literárias.
     Todos brilhantes, mas o texto que me chamou mais atenção, pelo tom emocional e muito inteligente, foi o de Mércia Pinto: Em Dezembro de 1968: fica comigo esta noite.
     A noite do AI-5. Mércia descreve com perfeição o ambiente da tragédia dentro da tragédia, o golpe dentro do golpe. Nada mais evocativo do que lembrar o samba-canção Fica Comigo Esta Noite, sucesso de Nelson Gonçalves, lançado em 1961 e que perdurou por umas duas décadas, principalmente nos ambientes boêmios.
          Percalços
     O recém-graduado opta por fazer o mestrado em Odontologia pela Universidade de São Paulo (USP) em 1969. Um risco até para quem, a exemplo de Galba,  recusara o caminho da clandestinidade e da luta armada contra o regime ditatorial, mas que possuía antecedentes políticos. A capital paulista vive muita tensão: o auge da guerrilha urbana e também da repressão feroz, dos assassinatos e das torturas a presos políticos.
     Alcança o objetivo e retorna a Fortaleza. Conhecido na capital cearense, sua cidade adotiva, é aqui que ele enfrenta o estigma de opositor da ordem instaurada em 1964 e reforçada em 1968.  
     Começa a trabalhar num consultório de odontologia. Chega a ser preso e interrogado pelo simples fato de seu cartão de visitas ter sido encontrado em poder de um preso político. Vive três dias de muita angústia, mas é libertado. Os percalços não param: é impedido de exercer a profissão no Sindicato dos Bancários.
     É excluído do concurso para professor do Curso de Odontologia da UFC, mesmo tendo obtido vantagem na prova de títulos, escrita e didática. Submetido a assédio moral (você não deve fazer a prova, não tem chance) é reprovado na aula-experimento para o qual fora sorteado.

     Antes, em 1968, ainda estudante de Odontologia, fora demitido do Colégio Justiniano de Serpa, onde lecionava Biologia. Óbvios motivos políticos.

          Vitórias    
     Galba não desiste. Consagra-se na profissão que abraçara nas lutas da década de 60. Além de odontólogo competente e autor de trabalhos científicos, destaca-se como líder da categoria: na presidência da Associação Brasileira de Odontologia-CE e do Conselho Regionl de Odontologia  (CRO). Retoma outro antigo sonho: o de professor. Exerceu o cargo no Curso de Odontologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), do qual foi coordenador. É mestre em Psicologia pela Unifor. Atuou ainda no serviço público, como secretário-adjunto de Saúde
     No posfácio de Urânia de Almeida Gomes, esposa de Galba, uma definição do autor:
     A integridade moral, a honestidade em relação a tudo e a todos, a fidelidade a seus conceitos, continuam os mesmos. Em relação aos amigos, são intocáveis e a eles tem toda a dedicação. Sua personalidade o tempo apenas lapidou.

    Este blogueiro assina embaixo e faz apelo: que venham mais livros.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Resposta a Barros Alves: caminho iluminado de Tasso é o PDT

       Tasso tem ligações genéticas com o trabalhismo


                          
     Barros: da ultradireita ao neossocialismo?


     Li, com agradável surpresa, o artigo “Para onde vai Tasso Jereissati?”, de autoria do meu amigo Barros Alves, e publicado na edição de hoje (terça-feira, 26/1/16, do jornal O Povo). Alegra-me sobremaneira a profissão de fé do autor na legítima social democracia e, na sua vertente mais avançada, o socialismo democrático. A euforia é maior quando vejo que o autor assina o artigo como secretário-geral do Partido Socialista Brasileiro (PSB).


     Confesso que imaginava Barros Alves, a essas alturas do radicalismo da vida política nacional, a envergar camisa preta e a entoar loas a Benito Mussolini e aos patológicos ultradireitistas brasileiros Olavo de Carvalho, Jair Bolsonaro ou aos extremistas neoliberais Reinaldo Azevedo e Rodrigo Constantino.
     Auguri, auguri tanti, como dizem os italianos, ou seja, que essa mudança seja prenúncio, prefiguração, augúrio, de outras melhores que estão por acontecer.
     Sempre tive bom relacionamento com Barros Alves, quando cobria política na Assembleia Legislativa para o jornal O Povo e, depois, quando passei a frequentar uma livraria que ele mantinha na Avenida Dom Manuel, destinada a empréstimos de livros a leitores. Ideia das melhores.
     Leitor voraz, eu admirava – e ainda admiro – Barros Alves pelo amor e dedicação que ele dispensa aos livros e aos autores clássicos. Escritores e poetas de uma maneira geral. Estávamos sempre a debater e comentar a respeito de autores nacionais e estrangeiros. Infelizmente, o negócio de livros que ele mantinha não foi para frente, a exemplo do que acontece com a maioria dos empreendimentos culturais neste País. Uma pena. Mas a amizade e as conversas continuaram.
     Na eleição presidencial de 2010, no entanto, a primeira que Dilma Rousseff disputou – e ganhou – eu reencontro, nas redes sociais, mais precisamente no Facebook, um Barros Alves na extrema-direita, rancoroso e agressivo. A desancar a candidata do PT e partidos aliados à Presidência da República, e o que ele chamava de “petralhas” e “comunas”.  Trocamos algumas palavras ásperas e resolvi bloqueá-lo no Facebook a fim de que a situação não evoluísse para rompimento pessoal, o que, felizmente, não aconteceu. Minha admiração e estima por Barros Alves continuou. Acredito que haja reciprocidade. Já nos encontramos posteriormente e sempre nos saudamos amigavelmente.
     Mas, voltemos ao artigo de Barros Alves que me despertou curiosa atenção. Diz o articulista: “Neste momento em que se abate sobre o Brasil uma crise ética e econômica sem precedentes na nossa história, Jereissati (Tasso) tem sido referência de firmeza e de prudência no Congresso Nacional. No Ceará todos sonham com o seu apoio nos embates político-eleitorais que se avizinham. O líder social democrata, antes demonizado pela esquerda, hoje é cortejado por muitos espectros político-ideológicos do nosso Estado, aí incluindo a mesma esquerda lulo-petista que o apedrejava”.
     Partilho, até certo ponto,  das considerações feitas pelo autor. Mas, data vênia o neossocialista Barros Alves: devo lembrá-lo que, em 1986, Tasso Jereissati, foi eleito governador do Ceará com o apoio da maioria da esquerda cearense. Incluo nesse leque o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), este último abrigado como tendência do PMDB (Partido Democrático Brasileiro), sigla pela qual Tasso Jereissati disputou – e foi vitorioso – o Governo do Estado. O Partido dos Trabalhadores (PT), na esquerda, foi o único que não o apoiou e lançou padre Haroldo como candidato à sucessão estadual.
     Barros Alves prossegue e sugere mais avanços político-ideológicos a Tasso Jereissati: “Todavia, há que se firmar na ideia de que, pelo menos no Ceará atual, não há caminho mais iluminado para Tasso Jereissati e o PSDB do que o socialismo democrático com raízes no pensamento que, ao longo da história, se irmana, de forma siamesa, com a social democracia”.
     Peço licença para contrariar o articulista mais uma vez. Pela herança genética de Tasso Jereissati o “caminho mais iluminado” seria apoiar, nessa disputa municipal, o Partido Democrático Trabalhista (PDT), herdeiro legítimo do trabalhismo de Getúlio Vargas, João Goulart e, principalmente, Leonel Brizola. O pai de Tasso Jereissati, senador Carlos Jereissati, foi amigo e correligionário dessas três personalidades históricas.
     Vargas, Goulart e Brizola sofreram na carne as mesmas terríveis pressões que Dilma Rousseff padece agora por parte da grande mídia e das mesmas forças reacionárias. O primeiro respondeu aos inimigos com o heroico gesto do suicídio, o segundo foi deposto e o terceiro amargou longo exílio, retornando ao Brasil para retomar a herança trabalhista, acrescentando o tempero “socialista moreno”, expressão cunhada por Brizola. Se Barros Alves cita proeminentes figuras intelectuais do PSB, o PDT o supera com nomes da estirpe de Alberto  Pasqualini, Darci Ribeiro e Abdias Nascimento, entre tantos outros.

     Além de tudo isso, Tasso Jereissati mantém relações de amizade com o pré-candidato do PDT à Presidência da República Ciro Gomes e seria natural seu apoio ao postulante pedetista ao  Paço Municipal em Fortaleza.